Armênia, o primeiro país cristão do mundo

Velas acesas pelos fiéis no Mosteiro de Geghard

Embora já tenha sido ela própria um império que, sob o reinado de Tigranes II (século I a.C.), era tão extenso que possuía acesso aos mares Mediterrâneo, Negro e Cáspio, a Armênia funcionou como fronteira entre impérios poderosos. Romanos e persas, turcos e persas, turcos e russos, turcos e soviéticos, a Armênia sempre esteve entre eles. O que sempre uniu sua população durante tantas disputas geopolíticas, inclusive as atuais, com seus vizinhos Turquia e Azerbaijão, foi o Cristianismo.

A bela Hripsime

Já no século I d.C., o Cristianismo começou a ser difundido na região pelos apóstolos Bartolomeu e Tadeu. Em 301, foi reconhecido como religião de estado. A Armênia foi o primeiro estado a fazê-lo, sendo seguida pela Geórgia e, posteriormente, até mesmo pelo Império Romano.

A história de como isso veio a ocorrer é muito interessante. Quando descobriu que 37 freiras que fugiram da perseguição religiosa promovida pelo imperador Diocleciano em Roma e pregavam o Cristianismo na Armênia, o rei pagão Trdat III, ou Tiridates, mandou matá-las. Duas dessas freiras eram Hripsime e Gayane.

Igreja de Hripsime

Dizem que o rei foi avisado pelo imperador Diocleciano da presença delas em território armênio e pediu que Trdat lhe devolvesse Hripsime, com quem queria se casar. Só que Trdat também se apaixonou pela bela Hripsime. Ela se negou a casar-se com ele, uma vez que já era noiva de Cristo, e foi apoiada em sua decisão pelas demais freiras. Por isso, todas foram mortas com requintes de crueldade, sendo que os restos da maioria foram jogados às feras.

Gregório, o Iluminador

Paralelamente, o rei mandou prender Gregório, o Iluminador. Filho de um inimigo do pai do rei, Gregório havia retornado da Capadócia para a Armênia com o objetivo de evangelizar o país. Gregório ficou encarcerado em Khor Virap, que era o presídio de segurança máxima da época. Os presos mais perigosos eram levados para lá e jogados em calabouços, onde não eram alimentados, nem recebiam água para beber. Só que uma mulher descobriu uma passagem secreta e, por meio dela, forneceu alimentos e água para Gregório, que assim conseguiu sobreviver.

Khor Virap, com o Monte Ararat atrás

O rei ficou louco depois de ter sido enganado por Diocleciano, que lhe tomou grandes nacos territoriais na parte ocidental do império. Sua irmã teve uma visão de que Trdat só seria curado por aquele que estava preso. Descobriu-se que essa pessoa era Gregório, que realmente conseguiu curar o rei. Emocionado, o rei converteu-se ao Cristianismo e o adotou como religião de estado. Mas historiadores apontam uma razão mais pragmática para isso. A adoção da religião cristã era uma política de estado que servia para unir a população e assim fazer frente às ameaças romanas, de um lado, e ameaças persas, de outro lado.

Peculiaridades do Cristianismo local

As primeiras igrejas da Armênia e da Geórgia eram basílicas, edifícios retangulares divididos em três naves paralelas, com domos sobre eles que começaram a aparecer no século VI. Depois as construções começaram a se tornar mais simétricas, contando com um domo construído sobre o centro. Essas igrejas podem ser quadradas ou cruciformes. Mas é comum haver igrejas quadradas ou retangulares por fora e com uma estrutura cruciforme por dentro. Em algumas há, ainda, uma sala antes do salão principal. Tal sala servia para o crente livrar-se de seus pecados antes de entrar na igreja propriamente dita.

O interessante é que algumas dessas estruturas continuaram a ser utilizadas no século XX, em pleno período soviético. A estação de trem de Yerevan, por exemplo, tem formato cruciforme. Talvez representasse uma forma de protesto, já que a União Soviética impunha o ateísmo.

Além das igrejas, outro traço peculiar são os khachkars. Relacionados pela Unesco em sua lista de Patrimônio Cultural da Humanidade, os khachkars são estelas esculpidas em pedra por artesãos armênios. São ornamentadas com cruzes encravadas. Às vezes, incluem outros detalhes, como animais, frutas, santos e motivos geométricos. Elas serviam para indicar locais de adoração.

Exemplos de khachkars. Estes se encontram na região de Dilijan, no caminho para Haghartsin.

Surpreendente na Armênia é ver que, apesar de o país ter sido o primeiro a adotar o Cristianismo e de ter destruído todos os templos pagãos, com exceção de Garni, a população ainda tem o costume de oferecer uma espécie de sacrifícios de animais. Costumam fazê-lo, por exemplo, para agradecer por algum acidente em que ninguém morreu. Matam um animal, fazem um churrasco e o oferecem não só a parentes e amigos, mas a estranhos também.

Algumas das igrejas mais importantes da Armênia (Echmiadzin, Gayane e Hripsime) ficam bem próximas de Yerevan. Dá até para fazer um tour combinando-as.

Echmiadzin, o Vaticano Armênio

A igreja da Armênia segue uma linha própria do Cristianismo, a Apostólica Armênia, que possui seu próprio Vaticano em Echmiadzin, onde vive seu patriarca, a autoridade suprema. Também é o local onde foi erguido o primeiro memorial para lembrar das vítimas do genocídio armênio.

Na cidade, encontram-se a Catedral Mãe e também o Museu dos Tesouros.

O Museu dos Tesouros é assim chamado porque nele estão guardadas várias relíquias, tais como pedaços da cruz de Cristo e a ponta de lança utilizada por um soldado romano para perfurar Jesus enquanto ele ainda estava preso na cruz.

Mas o que mais me encantou mesmo foi a paz reinante em Echmiadzin.

Lá perto, ficam as Igrejas de Hripsime e de Gayane, erguidas em homenagem às freiras assassinadas por Trdat nos locais em que Gregório, o Iluminador, enterrou suas relíquias.

Foi em Gayane que acendi a minha vela, para agradecer por ter chegado sã e salva em Yerevan depois da viagem mais bizarra da minha vida.

Zvartnots

Não muito distante de Echmiadzin, Gayane e Hripsime, fica um dos lugares mais legais da Armênia, as ruínas de Zvartnots.

As ruínas de Zvartnots

Elas pertencem a uma catedral construída no século VII e que ruiu no século X, muito possivelmente porque o projeto foi mal elaborado e a estrutura não aguentou o peso da cúpula.

O lugar é tão incrível que serve de cenário para noivos tirarem foto de seu casamento.

Zvartnots como cenário de fotos de casamento

No museu anexo ao sítio arqueológico, há o modelo mostrando como era a Catedral, que pretendia homenagear santo Gregório, o Iluminador. E, na frente do museu, há uma pedra com escrita cuneiforme.

De lá, também dá para ver o Monte Ararat, superimportante para os armênios. Segundo o livro do Gênesis, a arca de Noé encalhou nele e os armênios seriam descendentes de um tataraneto de Noé. O Monte, na verdade, são dois: o pequeno, com 3.896 m, e o grande, com 5.137 m.

Monte Ararat, tão perto, tão longe.

O triste é que, apesar de o Ararat ser a maior referência identitária dos armênios, encontrando-se a sua representação até mesmo no brasão de armas do país (isso já na época soviética), ele se localiza atualmente na Turquia. Foi um presente que os soviéticos deram para a Turquia pelo Tratado de Kars, de 1921.

É a perfeita tradução da expressão “tão longe, tão perto”, ou melhor, “tão perto, tão longe”. Isso porque se pode ver o Ararat de vários pontos do país, inclusive da capital, Yerevan. Tão perto… Mas os armênios não podem visitá-lo, pois as fronteiras entre a Armênia e a Turquia encontram-se fechadas desde o conflito envolvendo a região separatista de Nagorno Karabakh com o Azerbaijão. Tão longe…

Nem sou armênia ou descendente de armênios e, mesmo assim, fiquei triste ao vê-lo tão longe…

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Vox Populi

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