Azerbaijão, terra do fogo eterno

As rochas de Gobustán, que escondem petróglifos ancestrais

O Azerbaijão é, definitivamente, a terra do fogo eterno. A etimologia do nome “Azerbaijão” descreve de forma mais do que correta o país a que se refere. Tudo nele remete ao fogo, a começar pelas Flame Towers e pela chama eterna no memorial dos heróis nacionais mencionados no post Entre o antigo e o novo em Baku. Os arredores da cidade enfatizam ainda mais a comparação. E não é preciso ir muito longe do centro de Baku para se constatar isso.

O Templo de Fogo ou Ateshgah

A primeira prova de que o Azerbaijão é mesmo a terra do fogo se encontra ao norte de Baku, na cidade de Surakhani na península de Absheron. Nessa região está o Templo de Fogo.

Embora o local já fosse usado pelos zoroastristas muito tempo antes, o complexo foi construído no século XVIII por indianos devotos de Shiva. Europeus que visitaram o país durante os séculos XVIII e XIX relataram que a chama eterna do templo era alimentada pelo gás natural que saía de cavernas localizadas abaixo do local. Dado que o Azerbaijão é um dos maiores exportadores de gás do mundo, esses relatos são bem críveis. Contudo, com a exploração do gás e do petróleo na região, o fogo acabou se apagando. Foi novamente aceso anos depois e, hoje em dia, mantém-se assim graças a um gasoduto.

Incluído na lista da Unesco de Patrimônios Culturais, no centro do templo fica um domo que protege um altar com a chama eterna, cercado por outras chamas.

Templo de Fogo
Templo de Fogo

Ao redor, onde antes estavam as celas dos monges, há um museu explicando as principais crenças dos zoroastristas. Trata-se de uma religião fascinante.

O Zoroastrismo

O Zoroastrismo foi a principal religião da região até a chegada do Islamismo. Atualmente, estima-se que ainda possui 150 mil seguidores espalhados pelo mundo.

Zoroastro ou Zaratustra teria nascido entre 1000 a 1500 a.C. Teria sido ele o responsável pela Avesta, o livro sagrado da religião, que foi a primeira a falar em um deus onipotente e invisível, Ahura Mazda. Esse deus não tinha símbolo ou ícone. Seus seguidores deveriam rezar para ele sempre olhando em direção à luz. Daí a importância do fogo e a construção dos Templos de Fogo, que deveriam arder eternamente.

Templo de Fogo
Templo de Fogo

A religião prega a dualidade, a eterna batalha entre o bem e o mal. Vohu Mano (Mente Boa) e Ahem Mano (Mente Má), presentes em todas as formas de vida e até mesmo em Ahura Mazda, são os responsáveis pelo dia e pela noite, pela vida e pela morte.

Os zoroastristas também acreditam na pureza de todos os elementos e, por isso, não enterram os corpos dos mortos, nem os cremam, pois isso poluiria o ar e a terra. Construíram as Torres do Silêncio. Em seu centro, depositavam os corpos para que a carne fosse comida pelos abutres. Essa prática foi proibida posteriormente, motivo pelo qual hoje em dia os zoroastristas colocam os corpos dos defuntos em caixas de concreto.

Curiosidades sobre o Zoroastrismo

Os antigos sacerdotes eram chamados de magi e acredita-se que “Os Três Reis Magos” fossem seus sacerdotes. E sabem quem pertencia a uma família zoroastrista? Farokh Bulsara. Ou melhor, Freddie Mercury.

Fora dos livros de história, meu primeiro contato com a religião foi em Yazd, no Irã. Lá ainda ainda vivem milhares de zoroastristas. Visitei na cidade as impressionantes Torres do Silêncio (Dakhmeh-ye Zartoshtiyun) e o Templo do Fogo (Ateshkadeh). São lugares incríveis e que merecem ser visitados.

Aliás, veio do zoroastrismo a maior e melhor lição de uma religião que eu poderia receber. Segundo a Avesta, seu livro sagrado, deve-se PENSAR O BEM, FALAR O BEM e FAZER O BEM. Simples assim. E mais do que suficiente!

Yanar-Dagh

Perto do Templo de Fogo, há mais uma prova da correção do nome Azerbaijão: uma montanha ardente, alimentada pela alta concentração de gases naturais debaixo da Península de Absheron.

Já no século XIII, Marco Polo mencionou um lugar em que várias chamas de gás natural queimavam espontaneamente. Supõe-se que ele se referia justamente a essa região. Entretanto, a única que arde atualmente é a de Yanar-Dagh, que vem queimando desde os anos 1950, quando um pastor de ovelhas jogou uma bituca de cigarro no local.

A montanha ardente de Yanar-Dag

É um espetáculo impressionante!

Torres de petróleo

Mas não só de gás vive a Península de Absheron. As torres de petróleo estão espalhadas por toda a redondeza, às vezes, misturadas aos bairros da cidade. É uma paisagem surreal, que parece saída de um filme de ficção científica.

Torres de petróleo

O petróleo já tinha sido notado na região desde o século X. Foi nela que surgiu o primeiro campo petrolífero do mundo, em 1848. Mas foi somente em 1872, quando sua extração foi desregulamentada, que Baku teve um rápido crescimento, ou o seu primeiro boom. Em 1905, Baku produzia 50% do petróleo mundial.

Alguns anos após se tornar independente da União Soviética, novos investimentos na extração e distribuição do petróleo foram feitos no Azerbaijão. Um dos principais foi a construção do segundo maior oleoduto do mundo, que leva o petróleo azeri até a Turquia, passando pela Rússia e Irã. Graças a isso, um novo boom ocorreu e é o resultado dele que vemos hoje nas ruas e avenidas revitalizadas de Baku.

Indo na outra direção, ou seja, para o sul de Baku, também podem ser vistos outros campos petrolíferos. Mas não só: também há campos de lama e arte rupestre de milhares de anos.

Gaval Dash ou vulcões de lama

Indo em direção a Gobustán, pode ser visitada a Mesquita de Bibi-Heybat, que fica bem no caminho.

Depois de algum tempo, chega-se a Gaval Dash, que se encontra dentro do parque do Gobustán. Trata-se de uma região cheia de vulcões de lama borbulhante. Eles são formados por uma mistura de lama, água salgada, gás metano e petróleo.

Vulcões de lama
Vulcões de lama

O Azerbaijão, sobretudo a costa do Mar Cáspio, abriga em torno de 400 vulcões de lama, mais da metade dos existentes no planeta. Em 2001, um deles chegou a expelir chamas de 15 m de altitude. Em média, a cada vinte anos um vulcão de lama explode violentamente. Eles chegam a expelir chamas de vários metros e a depositar toneladas de lama ao redor.

Somente em cinco lugares do mundo há esse tipo de formação: no Azerbaijão, na Islândia, na Nova Zelândia, nos Estados Unidos (Yellowstone) e na Rússia. Contudo, diferentemente dos outros lugares, a lama no Azerbaijão é fria, e não quente.

Trata-se de um passeio imperdível, que, porém, não pode ser realizado em dias úmidos.

Gobustán

O Gobustan National Park (Qobustan Milli Parkı, em azeri), oficialmente chamado de Gobustan Rock Art Cultural Landscape, é um dos pontos mais famosos do Azerbaijão. Patrimônio da Unesco, nela se encontram cerca de 6 mil petróglifos (figuras gravadas na rocha), que datam de 5.000-20.000 anos.

Os temas incluem o desenho de homens primitivos, animais, batalhas, danças, brigas de touros, guerreiros com suas lanças, caravanas de camelos, sol, estrelas…

Algumas das figuras representadas em Gobustán

Há até mesmo um barco navegando em direção ao sol, semelhante a representações encontradas na Noruega. O etnologista Thor Heyerdahl chegou a sugerir que os escandinavos teriam se originado no Azerbaijão. Thor Heyerdahl é aquele norueguês que atravessou o Pacífico em uma jangada rudimentar, a Kon-Tiki, com o intuito de provar que a Polinésia teria sido colonizada por indígenas sul-americanos. Ainda que ele tenha bem sido sucedido em sua aventura com a Kon-Tiki, provando pelo menos a existência da possibilidade de os indígenas terem chegado à Polinésia, não conseguiu convencer seus pares sobre a origem azerbaijana dos escandinavos.

Mas voltando aos petróglifos, eles constituem um verdadeiro testemunho de um estilo de vida que desapareceu. São representações gráficas de atividades relacionadas a caçadas e pescarias, em uma época em que o clima da região era mais quente e úmido do que hoje em dia e, a vegetação, mais abundante. Algumas das figuras retratadas, aliás, nem são mais encontradas no Mar Cáspio, como baleias e golfinhos.

A região, formada por um conjunto de rochas que colapsaram, já é interessante por si só. Ainda no complexo, há um pequeno museu para contextualizar o sítio arqueológico. Nele são oferecidas visitas guiadas, essenciais para ajudar a localizar e decifrar as figuras.

Por fim, segue o link de um filminho que fiz para provar de vez que o Azerbaijão é mesmo a terra do fogo.

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Vox Populi

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