Conhecendo o novo – e fantástico – IMS Paulista

O Instituto Moreira Salles abriu sua nova sede em São Paulo

Exposição Corpo a Corpo no IMS.

Um dos meus lugares preferidos no Rio de Janeiro não é a praia de Ipanema, de São Conrado, muito menos de Copacabana. Também não é o Corcovado ou o Pão de Açúcar. Nem a Lapa ou Santa Marta. Nem mesmo a Confeitaria Colombo (e olha que adoro doces e salgadinhos!). É o Instituto Moreira Salles, localizado no bairro da Gávea, onde viveram Walther Moreira Salles e sua família.

Invejava muito os cariocas por possuírem um centro cultural tão lindo, um marco da arquitetura moderna dos anos 1950, cercado pelo exuberante jardim planejado pelo paisagista Roberto Burle Marx. Agora não preciso mais me sentir assim, porque a cidade de São Paulo ganhou uma versão maior e melhorada, o IMS Paulista. Pode não ter o mesmo charme da do Rio, nem a Floresta da Tijuca como entorno, mas não dá para reclamar. Longe disso!

O acervo do IMS

O Instituto Moreira Salles tem importantes patrimônios em quatro áreas: fotografia, música, literatura e iconografia.

Na fotografia, o IMS cuida de cerca de 2 milhões de imagens, que cobrem os séculos XIX, XX e o atual, reunindo trabalhos de Marc Ferrez, Marcel Gautherot, José Medeiros, Maureen Bisilliat, Thomaz Farkas e Hans Gunter Flieg. Por isso, é considerado a mais importante instituição de fotografia do país. Também possui raridades na área da música, como gravações de antigas canções brasileiras e de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Pixinguinha.

Na área da literatura, o Instituto possui cartas, papéis, documentos diversos e livros, dentre os quais se destacam os arquivos pessoais de Otto Lara Resende, Erico Verissimo, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Paulo Mendes Campos, entre outros. Já no campo da iconografia, reúne aquarelas, gravuras e desenhos feitos sobretudo por artistas viajantes que vieram para o Brasil a bordo de expedições diplomáticas ou especificamente culturais no século XIX.

Além de cuidar desse vasto material, catalogá-lo e eventualmente expô-lo, o IMS tem a preocupação de difundi-lo o máximo possível, por meio de seu endereço na internet e do incentivo à pesquisa, a fim de construir legados culturais.

Programação do IMS

Com um acervo tão rico e uma missão tão nobre como essa, o prédio acanhadinho em Higienópolis, seu endereço anterior, realmente não dava mais conta, sendo necessária outra sede na cidade de São Paulo.

A nova sede na Paulista

O novo prédio foi inaugurado em 20/09/2017,  em plena Avenida Paulista, quase na Consolação. Dada a vocação cada vez mais cultural da avenida, não poderia haver um lugar mais apropriado para a instalação de um instituto dessa magnitude.

Detalhe do projeto do novo IMS

São nove andares, em um projeto realizado pelo escritório de arquitetura Andrade Morettin a partir de conceitos sustentáveis. Com isso, atividades que eram desenvolvidas somente na unidade do Rio, como mostras de cinema, palestras, cursos e shows musicais, ocorrerão em São Paulo também.

Segundo o arquiteto do novo IMS, um dos maiores desafios do projeto foi desenvolver um museu vertical. Uma das soluções encontradas foi transpor para o quinto andar o ambiente de entrada e convívio do centro cultural, a Praça IMS, acessível diretamente a partir do vão livre do térreo por escadas rolantes. Ficou bonito, mas confesso que, ao descer os andares das exposições pela escada normal, fiquei confusa quando ela de repente acabou, não me deixando outra alternativa além do elevador.

Comecei pelo nono e último andar, chamado de Estúdio, onde está instalada a exposição São Paulo, Três Ensaios Visuais, e fui descendo para ver as demais exposições.

São Paulo, três ensaios visuais

A projeção que inaugura o Estúdio, espaço que dá acesso digital ao acervo fotográfico do IMS, é dedicada à capital paulista. Com duração de aproximadamente 30 minutos, os ensaios visuais resgatam os personagens da cidade, dentre os quais migrantes e imigrantes que buscaram aqui melhores condições de vida. Mostram, ainda, as grandes transformações que a cidade sofreu. Também tratam da comunicação visual, desde os muros pintados no século XIX até os luminosos e outdoors do século XX, terminando com as pichações.

Para formar esse panorama completo e complexo, são exibidas fotografias feitas a partir de 1862, como as de Militão Augusto de Azevedo. A elas, foram incorporadas fotografias do século XX, com imagens como as de Alice BrillVincenzo PastoreHildegard Rosenthal e Thomaz Farkas, até chegar ao século XXI e às fotos de Mauro Restiffe, entre outros.

O mais legal é que Guilherme Wisnik, curador da exposição, montou para o canal do IMS no Spotify uma playlist com canções sobre São Paulo, das tradicionais modas caipiras aos raps de hoje. Também foi elaborado um folheto lindo dessa exposição, que vai até 29/07/2018.

Câmera aberta

No mesmo andar do Estúdio, também está a mostra Câmera aberta. Trata-se de um projeto do artista alemão Michael Wesely, iniciado em 2014 a convite do IMS. O fotógrafo instalou seis câmeras nas fachadas dos edifícios vizinhos à obra do IMS Paulista, que capturaram continuamente imagens das quatro faces do edifício sendo construído.

As imagens foram captadas por meio de uma técnica desenvolvida pelo próprio artista, que utiliza câmeras construídas por ele que permitem expor um mesmo negativo ao longo de muitos anos, condensando diversos momentos em uma única fotografia. As câmeras registraram a obra do IMS Paulista por quase três anos e foram desinstaladas ao final da construção, em 2017.

A exposição vai até 30/12/2017.

Robert Frank: os americanos + os livros e os filmes

No oitavo andar, estão as fotos do artista de origem suíça Robert Frank integrantes da famosa série Os americanos e do projeto Os livros e os filmes, desenvolvido pelo fotógrafo em parceria com o renomado editor e impressor Gerhard Steidl.

Os Americanos, de Robert Frank.

Os americanos é o resultado da jornada de Frank pelos Estados Unidos, em que percorreu quase todos os estados. A viagem de Frank em um velho carro durou cerca de nove meses, entre 1955 e 1957, e originou mais de 28 mil fotografias, que se tornaram verdadeiros retratos de uma América multifacetada.

Os Americanos, de Robert Frank.

A série Os americanos também é notória por ter inaugurado a street photography, que privilegia a experimentação e a busca. Fascinante é ver como o fotógrafo analisava suas fotos. Vendo suas provas e percebendo suas escolhas, dá para começar a tentar uma aproximação ao seu pensamento artístico. Não raro, Frank optava por imagens de aparente imperfeição, sombras e áreas com pouca definição, mas que favoreciam a abstração e a iconicidade.

 Os livros e os filmes é uma montagem itinerante que une duas facetas de Frank, a de fotógrafo e a de cineasta. Mas, nessa parte da exposição, as fotos que mais me chamaram a atenção foram as que ele tirou em outros lugares do mundo. Verdadeiros instantâneos de residentes em Londres, Gales, Paris, Peru etc., todas essas fotos integram os diversos livros lançados com os trabalhos do fotógrafo.

Fotos de Robert Frank no Peru.

Também adorei a sequência com o ator Zero Mostel lendo um livro. Hilário!

A exposição vai até 30/12/2017. Paralelamente, será realizada uma retrospectiva da filmografia de Frank.

Corpo a Corpo

No sétimo andar, a exposição CORPO A CORPO: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo exibe um recorte da produção brasileira contemporânea em fotografia, cinema e vídeo por meio de sete trabalhos desenvolvidos por artistas e coletivos em parceria com os curadores do IMS. Os artistas foram convidados a pensar sobre o retrato, individual ou coletivo, e sobre como as imagens podem nos ajudar a enxergar os conflitos sociais que emergiram no Brasil nos últimos anos.

No espaço, estão as fotos da mostra À procura do 5º elemento de Bárbara Wagner e o documentário Terremoto santo, feito por Bárbara em colaboração com o artista Benjamin de Burca. Também está o novo trabalho do artista Jonathas de Andrade, Eu, mestiço, feito a partir de uma pesquisa sobre raça e classe no Brasil rural realizada nos anos 1950 pela Unesco.

O coletivo Mídia Ninja apresenta a obra #Ao vivo. Por sua vez, a artista Sofia Borges apresenta a instalação A máscara, o gesto, o papel.

A máscara, o gesto, o papel, de Sofia Borges.

Estão presentes, ainda, as mostras A resistência do corpo, de Letícia Ramos, e o livro Postais para Charles Lynch, do coletivo Garapa.

A exposição vai até 30/12/2017.

The Clock

Quer passar 24 horas assistindo a um verdadeiro mosaico de cenas de filmes que citam a hora? É essa a proposta do IMS para a genial The Clock, que recebeu o Leão de Ouro na 54ª Bienal de Veneza, em 2011 e está em exibição no sexto andar.

The Clock é uma videoinstalação de Christian Marclay, composta por milhares de cenas de cinema e televisão que fazem referência ao horário do dia. Em todos os casos em que a hora é mencionada por um personagem ou surge na tela, seja em objetos de pulso, de bolso, em torres de igrejas, mostradores digitais ou cuco, ela coincide com a hora real do lugar em que a obra está sendo mostrada. Com duração de 24 horas, o trabalho é, portanto, um imenso relógio formado por fragmentos de filmes de toda a história do cinema. São exibidas cenas de Pulp Fiction Taxi Driver, de filmes de James Bond e Indiana Jones, de produções de Kurosawa e de Woody Allen etc.

Ao exibir uma série de ícones cinematográficos, a montagem tem o poder de ativar nossa memória afetiva. Segundo o site do museu, o espectador pode permanecer na sala durante o tempo que quiser. Juro que deu vontade de permanecer o resto do dia vendo cada minuto dessa videoinstalação. Literalmente!

Aliás, durante o período de exibição (que vai até o dia 19/11/2017), serão realizadas nove apresentações de 24 horas, sempre de sábado para domingo, permitindo ao público experimentar a obra na íntegra. Nessas ocasiões o IMS Paulista ficará aberto durante as madrugadas, pois a obra será projetada ininterruptamente, das 10h do sábado às 20h do domingo.

O cineteatro

Agora o novo IMS também tem um cineteatro, no terceiro andar. Vale a pena conferir a sua programação. Neste domingo, dia 01/10/2017, por exemplo, será exibido um filme que sempre quis ver: Suspiria, de Dario Argento.

Segundo o cartaz desse filme de 1977,  “A única coisa mais assustadora do que os 12 minutos finais desse filme, são os 72 iniciais”. A premissa promete: em Suspiria, quando Suzy Banner chega à escola de balé em que sempre sonhou estudar, eventos perturbadores e uma série de assassinatos a levam a tentar desvendar segredos que podem estar ligados ao mundo sobrenatural.

Os ingressos custam R$ 8,00 (inteira) e R$ 40,00 (meia).

A biblioteca e a livraria

No primeiro andar do novo prédio, foi instalada uma biblioteca que pode ser livremente consultada. O local ainda dispõe de mesas ideais para quem quiser – ou precisar – estudar por lá e sofás confortáveis. É um bom lugar para dar uma relaxada na região da Paulista. E o melhor de tudo é que o wifi é gratuito e funciona superbem. Também há salas de aula no prédio, no segundo andar, onde serão ministrados cursos ligados às áreas de expertise do IMS.

A linda biblioteca do IMS.

No centro cultural também há uma livraria, a IMS por Travessa, aberta em parceria com a Livraria da Travessa, referência cultural no Rio de Janeiro.

A livraria IMS por Travessa.

A loja está integrada ao ambiente da Praça IMS, no quinto andar, e tem como foco, além das publicações e produtos do instituto, obras nacionais e importadas sobre fotografia.

O café e o restaurante

O térreo do IMS Paulista abriga o restaurante Balaio, do premiado chef Rodrigo Oliveira, dono dos famosíssimos restaurantes Mocotó e Esquina Mocotó. Na Praça IMS, o café Balaio tem como carro-chefe o café da manhã artesanal, com influências de todas as regiões brasileiras.

Sinceramente, achei o café meio caro (R$ 7,00 o café expresso), mas fiquei morrendo de vontade de pedir os minibolos (R$ 2,00 cada e R$ 5,00 três tipos diferentes).

E aí, contente por ter ganhado mais um centro cultural para chamar de seu? Eu fiquei! E tenho certeza de que vou voltar a ele muitas e muitas vezes!

Informações Úteis:

Horário de funcionamento? Terças a domingos, das 10h às 20h. Às quintas, das 10h às 22h. Última admissão 30 minutos antes do horário de encerramento.

Onde? Avenida Paulista, 2424, São Paulo/SP, CEP 01310-300. Tel.: (11) 2842-9120.

QuantoEntrada gratuita para o centro cultural e exposições. No cinema, os ingressos podem ser adquiridos no balcão da Praça IMS ou, a partir de outubro, pelo site ingresso.com. Os preços variam de R$ 8,00 a R$ 26,00, de acordo com o filme. Em shows, cursos e determinados eventos, ingressos podem ser vendidos através do site eventbrite.com.br  ou senhas são distribuídas gratuitamente meia hora antes do início da atividade.

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