Elo de elos (ou metáfora da bicicleta)

Devo admitir que tinha problemas para assumir vínculos em minhas relações, aceitar que desejo estar próxima e me conectar a outro corpo, me abrir um pouco para mostrar como é forte o desejo de estar por perto. Acreditava que demonstrar todo amor que sentia era demonstrar uma fraqueza, me fragilizar, como se um relacionamento fosse uma competição.

Tinha medo de perder meu contorno, deixar de saber onde eu começava e terminava, com a inocente ilusão de que somos seres totalmente acabados e me esquecendo que, todos os dias e a cada pessoa que encontramos, mudamos ao absorver informações capazes de alterar nosso caminho,  revelar outros horizontes e ampliar percepções.

Demorou anos para chegar a essa reflexão e, mesmo assim, sei que ela não se esgotou, pois, apesar de estar consciente de que, sim, há amor e respeito, minha intensa e relativamente recente relação me rendem momentos de profunda conversa a fim de alcançar uma possível pacificação numa convivência nada monótona.

Eu falo, falo muito, talvez seja mais um monólogo, mas sei que ela sempre me ouve. E ela, minha bicicleta, me responde pacientemente das formas mais surpreendentes e delicadas.

Desde criança desejei aprender a andar de bike, mas isso só foi concretizado após os 30 anos, época em que muita coisa já está tatuada no corpo e arriscar-se em algo novo é sempre um pouco mais difícil, já que aquela curiosidade infantil perde espaço para os medos de um possível ferimento.

Demorou, mas finalmente aprendi a me equilibrar sobre suas rodas. No entanto, o curioso é que, hoje, percebo que eu não aprendi a pedalar com quem me ensinou a andar de bicicleta. Naquela época, tinha medo de me jogar numa aventura e resisti a seus encantos o máximo que pude.

Para mim, o verdadeiro aprendizado veio muito depois de subir e dar as primeiras pedaladas.  A aprendizagem se deu quando me dei conta de que, se realmente queria me descobrir bicicleta, teria de encarar a situação solitariamente. Quer dizer, não tão solitária assim, pois, na loucura dos meus dias e da minha mente, a bike me fez companhia e ela e eu começamos a nos aprender e nos apreender.

Não foi de repente que isso aconteceu, o aprendizado é um processo constante e enfrentei momentos de resistência (minha, claro!). Para me aproximar dela tive de aprender a baixar a guarda, olhá-la sem receio de me mostrar e tocá-la e me deixar ser tocada sem medo de me machucar.

Há dias em que me fundo a ela e, no início, de tão exposta, pensava me afastar. No entanto, isso não durava muito, pois aí lembrava que não é porque o vínculo se deu, que meus dedos entrelaçaram o guidão, meus pés grudaram no pedal e minhas coxas se tornaram companheiras da corrente, que me perco.

A verdade é totalmente oposta. Ao me fundir, eu me ganhei. Pois é nessa fusão e enraizamento dos vínculos que cada vez mais me encontro, me conheço e descubro do que, como e quando gosto. E eu gosto de estar com, na e sobre a bicicleta.

Simplesmente nos emaranhamos.

E, mesmo assim, eu sou cada vez mais eu, e ela… ah, ela é livre e, quando deseja, sai rodando por aí.

Vox Populi

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