Indo para onde sou

Impossible Beach. Bali, Indonésia.
Praia Pemutih (Impossible Beach), Bali, Indonésia.
Catedral da Assunção da Abençoada Virgem Maria, Zagreb, Croácia.
Katedrala Uznesenja Blažene Djevice Marije (Catedral da Assunção da Abençoada Virgem Maria), Zagreb, Croácia.

Não sei exatamente quando surgiu o desejo de viajar, mas desde que me dei conta de que ele existia sempre esteve ao meu lado.

Fui crescendo e a vontade de viajar também. Durante meu percurso, fiz gostosos e pequenos trajetos, todos maravilhosos, porém curtos (de duração e profundidade). Precisava de mais, almejava mais, pois a sensação era de ainda não ter chegado aonde deveria. Sentia-me desencaixada do mundo e não compreendia por que tinha de escolher entre esse ou aquele lugar, fazer parte dessa ou daquela turma. Por que tudo parecia e tinha de ser maniqueísta? Por que tudo tinha de ser ou isto ou aquilo? Por que sentia não ter encontrado o meu lugar e ter de conviver constantemente com a sensação de não pertencimento? Seria uma questão do mundo ou uma questão minha? Ou as duas coisas?

Foi somente em 2015 que eu encontrei o início da minha grande jornada. Para isso, larguei um emprego e fui me aventurar por diversos países durante seis meses. Não cheguei a dar a volta ao mundo, mas quase. E foi somente durante essa viagem, ao conhecer regiões e personagens complexos, que comecei a entender que pertencer a algum local vai muito além de encontrar um espaço, pois meu lugar é muito mais amplo do que eu poderia imaginar e, para mim, de difícil acesso.

Na Croácia, uma “avalanche” de emoções me atingiu: em Zagreb, percebi que precisava fazer uma boa limpeza na vida; em Zadar, deixei que algo novo nascesse em mim (e, coincidentemente, era meu aniversário); em Split, aceitei que o infinito cabe dentro de uma pessoa.

Na Turquia, encontrei uma paisagem que mostraria o caminho para onde eu precisava ir. Observando o mar da Indonésia, me dei conta de como juntar tudo o que eu havia sentido até o momento e como dar o primeiro passo para prosseguir na minha busca.

Na Malásia, enfrentei o primeiro grande teste depois de tantos insights. Em Chiang Mai (Tailândia), senti que eu tinha tudo de que precisava. Mas, no retorno para casa, a readaptação foi tão difícil que eu me sentia totalmente amarrada, sem forças para tomar uma atitude.

E justamente por ter perdido as forças, a força da avalanche me levou e eu caí.

Tentava relembrar de tudo o que havia aprendido nos últimos tempos, mas só encontrava um vazio. E um dia, conversando com meu sobrinho com apenas três anos na época, ele me perguntou se eu estava pensando em viajar novamente (até então, eu não havia falado nada sobre essa possibilidade para ele).

Templo de Chiang Mai, Tailândia.
A espiritualidade apresenta-se em todas as partes de Chiang Mai, Tailândia.

Deitada no chão da sala e olhando para o teto, respondi que sim, pois seria uma forma de conhecer regiões e pessoas que ainda não tive a oportunidade de admirar – e, cá entre nós, seria uma forma de fugir de uma realidade que estava difícil de conviver. Quando olhei novamente para o pequeno, seus olhos lacrimejavam e, se segurando para não chorar, ele me disse: “Não quero que você viaje de novo agora, porque não quero ficar longe de você e aí eu sentiria saudades. Eu não quero sentir sua falta.”

Ali, naquele momento, uma onda de lembranças tomou conta de mim. E eu despertei.

Minha grande viagem em busca de um lugar para chamar de meu começou em 2015, mas ainda não terminou apesar de eu estar, agora, quietinha no Brasil. Não acabou porque a inquietação de uma vida inteira finalmente explodiu e me pede para parar de me esconder, parar de procurar refúgio em algo que não está lá fora. Não está fora de mim. E sei que cada vez que eu me aprofundar mais nessa viagem ao interior, minha jornada ficará mais intensa e verdadeira. Todo dia é um passo diferente, um aprendizado novo e um recomeço. Não é simples, não é fácil e, às vezes, é doloroso, mas é a minha viagem.

E, talvez, seja essa a grande jornada que todos nós devamos um dia fazer para, por fim, entender que neste mundo quem se encontra é capaz de construir e respeitar um lugar em que todas as pessoas possam chamar de seu. E uma vez iniciada essa jornada, não importa onde e com quem estará, suas raízes e sua estrutura estará firme para apreciar o mais sutil raio de sol.

Vox Populi

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