Istambul: uma experiência sinestésica – parte III

Torre da Donzela à noite

Minha amiga spiritusmundiana Maísa Kawata, em dois posts anteriores (Istambul: tatuagem na alma – parte I e Istambul: cidade para se encantar – parte II), já contou um pouco sobre seu fascínio por Istambul e sobre os lugares que ela descobriu por lá. Assim como a Maísa, também me encantei pela cidade. Aliás, é difícil – senão impossível – não se apaixonar por Istambul.

A cidade frequenta o meu imaginário desde as aulas de História. Afinal, como esquecer nomes tão imponentes como Constantinopla ou Bizâncio? Como não me lembrar de tantos eventos que aconteceram nesse lugar onde o Ocidente e o Oriente se encontram, ponto final do Orient Express? Como não me sentir atraída pelos bairros por onde andou Orhan Pahmuk, cuja escrita me agrada tanto?

Eram esses e outros os sentimentos e recordações que a cidade me despertava antes mesmo de ir para lá. E, agora que já fui e passei por uma completa experiência sinestésica, o nome Istambul me faz relembrar dos aromas que cheirei, do tempero do dürum que devorei, da temperatura do chá de maçã que me foi tão gentilmente oferecido. Mas não só. Quando penso em Istambul, lembro da senhora fazendo o gözleme, do idoso com a sua filha vendendo luvas de lã no frio da madrugada, do professor posando orgulhoso para mim ao lado de seus alunos, dos passageiros do metrô me acudindo depois que levei um tombaço na plataforma da estação Sishane. Penso, enfim, em todos aqueles que encontrei nos lugares pelos quais passei e que me ensinaram um pouco sobre a alma turca.

Vários desses lugares já foram mencionados pela Maísa, sobretudo os do roteiro básico de seu segundo post, mas há outros ainda para mencionar. Segue abaixo uma relação dos que mais gostei e das experiências que vivi neles.

Apreciando a cidade por um outro ângulo: um cruzeiro pelo Bósforo

Cruzeiro pelo Bósforo

Istambul está localizada no Estreito de Bósforo, um canal que faz a ligação entre o Mar de Mármara e o Mar Negro. Em lugar em que há mar, é quase certo que também haverá passeios de barco. E isso há em profusão em Istambul. As empresas que oferecem os passeios estão concentradas nos arredores da Ponte de Gálata, próximas à estação de tram Eminönü. Não é preciso ceder ao assédio e comprar nenhum tour oferecido pelo caminho, mesmo porque há o risco de se cair em arapucas ao fazer isso. Basta ir diretamente às bilheterias das empresas (não me lembro mais por qual fui, mas a Sehir Hatlari está bem recomendada nos sites especializados). Há opções de diferentes durações e até algumas que incluem jantar e show folclórico.

Torre de Leandro ou Torre da Donzela

Fiz um passeio de aproximadamente duas horas, que já foi bem interessante. O cruzeiro navega pelo Bósforo, passando por diversos edifícios famosos de Istambul, como o Palácio Dolmabahçe, o Castelo de Rumeli, o Palácio de Çiragan e o de Küçüksu e a Torre de Leandro ou Torre da Donzela (o meu monumento preferido), e faz o retorno na segunda ponte, a Ponte Fatih Sultão Mehmet. Uma opção mais em conta é pegar o ferry para o lado asiático e vice-versa. E, na volta, se bater aquela fome, ainda dá para matar um sanduíche de peixe em um dos barcos atracados no porto.

Camelando nas Ilhas dos Príncipes

Charretes em Büyükada

Outro passeio de barco legal para se fazer a partir de Istambul é para as Ilhas dos Príncipes (ou simplesmente Adalar, que quer dizer “ilhas”, em turco), localizadas no Mar de Mármara. Não é preciso de nenhum tour especial para ir até lá; basta pegar o barco no porto de Kabatas. Chamadas de Ilhas dos Príncipes porque nela viveram os príncipes exilados durante a era bizantina, as ilhas se tornaram posteriormente um lugar de veraneio para os ricos. O arquipélago é formado por nove ilhas, mas somente quatro são habitadas: Kinaliada, Burgazada, Heybeliada e Büyükada.

Mansão em Büyükada

A viagem dura de uma hora a uma hora e meia, dependendo da ilha em que se vai descer. Acabei descendo em Büyükada (“ilha grande”, em grego), que dizem ser a mais interessante. Nela são proibidos veículos motorizados, como carros e motos. Por isso, passeios só a pé, de bicicleta ou de charrete. Resolvi percorrer a ilha a pé mesmo, para apreciar melhor a arquitetura das mansões antigas e, confesso, porque sou muquirana para certas coisas. Andei até o Mosteiro e a Igreja de São Jorge (uma boa subida!) e voltei. Mas talvez devesse ter aberto a carteira e pagado pela volta na ilha de charrete. Fun fact: foi lá que encontrei os gatos mais bem alimentados do país.

Gostei muito do passeio, mas o melhor mesmo foi voltar para Istambul já à noite e apreciar a cidade toda iluminada (foto em destaque).

Tomando meu primeiro chá de maçã no Pierre Loti Café

Chá de maçã

Por que ir até um café que fica tão longe do centro? Porque fica num lugar incrível, no alto da Montanha de Eyüp, com uma vista panorâmica do chamado Chifre de Ouro e de Istambul. O lugar é tão especial que, diz a lenda, teria sido aí que o oficial da Marinha e novelista francês Pierre Loti teria tido a ideia para escrever Aziyadé, romance semiautobiográfico que conta a história de seu amor proibido com uma moça do harém chamada Aziyadé. Daí o nome e a decoração do café, que homenageiam o escritor e a época em que ele viveu. Ah, já mencionei o chá de maçã naquele copinho lindo de vidro “acinturado” (na falta de uma explicação melhor) em cima do pires branco e vermelho? Pois é tudo isso que o Pierre Loti Café oferece. Ok, admito que o chá tem em todo lugar, embora eu tenha bebido o meu primeiro justamente no Pierre Loti, mas a vista e aquele ambiente não. O melhor de tudo é que o local é uma das paradas do ônibus double deck que faz o city tour da cidade e, para subir até ele, há um bondinho. Ainda dá para voltar pelo cemitério logo abaixo e sair na Praça da Mesquita do Sultão Eyüp.

Encontrando um professor e seus alunos no Palácio Dolmabahçe

Dolmabaçe

O Palácio Dolmabahçe, o primeiro de estilo europeu em Istambul, foi o principal centro administrativo do Império Otomano de 1853 a 1922. Localizado no bairro de Besiktas e construído por ordem do Sultão Abdülmecid I, custou uma fortuna. Pudera, já que 14 toneladas de ouro foram usadas para ornamentar os tetos do palácio, que tem, ainda, a maior coleção de lustres feitos de cristal da Boêmia e Baccarat do mundo. O design do palácio é eclético; reúne estilos barroco, rococó e neoclássico, misturados com a arquitetura otomana. Mustafa Kemal Atatürk, fundador e primeiro presidente da República da Turquia, passou seus últimos dias no palácio, vindo a falecer em um de seus quartos, que é atualmente parte do museu. Foi aí que encontrei o professor e os alunos que mencionei acima. Pedi para tirar uma foto deles e o professor, todo orgulhoso, posou ao lado de sua classe.

Professor e seus alunos

Jantando numa cisterna milenar: o Restaurante Sarnic

Restaurante Sarnic

A grande atração do Restaurante Sarnic, do hotel de mesmo nome, é a sua localização: ele foi montado dentro de uma cisterna de 1500 anos de idade, próxima da Santa Sofia e das muralhas do Topkapi. Iluminado por centenas de velas, é o ambiente certo para um jantar romântico. O lugar é grande, mas é aconselhável reservar. Gostei tanto da minha experiência em cisternas que resolvi beber um suco de romã espremido na hora, na Cisterna de Istambul, que a Maísa já havia mencionado.

Sendo envolvida por muita espuma no Hamam

Os hamams (ou banhos turcos) são muito famosos. E dentre os banhos turcos, o mais famoso é, com certeza, o Hamam Süleymaniye. A grande fila do lado de fora me demoveu da visita. Há diversos outros, também conhecidos, em que poderia ter ido (Çemberlitas, Cagaloglu e Çinili). Mas acabei tomando o meu banho turco no hotel em que fiquei, no bairro de Nisantasi. Em suma, você fica deitado numa pedra lisa e baldes de água são jogados sobre o seu corpo. Começa então a esfoliação, seguida de mais baldes de águas. E, então, vem a melhor parte: o seu corpo inteiro é coberto por uma espuma perfumada com essências naturais. Depois disso, mais água. Talvez tenha recebido alguma massagem nesse meio tempo da moça filipina que me atendeu. Não me lembro mais, mas sei que fiquei bem relaxada depois. Contudo, há gente que reclama da energia empregada na esfoliação ou na massagem que receberam em alguns lugares. Então talvez tenha sido até bom eu ter tomado banho turco no meu hotel, ainda que a experiência não tenha sido lá tão autêntica.

Sendo hipnotizada pela Sema, a dança dos dervixes

Esperando a apresentação dos dervixes começar no Hodjapasha

Os dervixes são praticantes do ramo sufista do islamismo, conhecidos pela extrema pobreza e pela austeridade. Focam nos valores universais do amor e da dedicação, desertando das ilusões do ego para atingir a Deus. A sua prática mais comum é a Sema, associada ao poeta persa Rumi, que anda bem pop atualmente. Não sem razão, porque suas poesias são realmente lindas. Quanto à Sema, trata-se de uma dança em que os dervixes rodopiam em seu próprio eixo, com uma das mãos apontada para o céu e, a outra, para a terra. O objetivo é atingir o êxtase religioso. Uma das ordens mais famosas que pratica a dança é a Mevlevi, fundada em 1273 pelos seguidores de Rumi após a sua morte. Embora a sede da ordem fique na cidade turca de Konya, a apresentação da Sema também pode ser vista em Istambul, no Hodjapasha Culture Center, um antigo hamam restaurado. Segundo a explicação do folder que trouxe comigo:

“No universo, tudo, desde os átomos até o sistema solar e até o sangue que circula no corpo, gira. A Sema é um ritual, uma jornada espiritual que a alma faz até Deus com o fim de se tornar madura e adquirir unidade. Após essa jornada, ela retorna para sua vida e para servir novamente a humanidade.”

Depois dessa explicação tão poética, não dá para deixar de conferir, né?

 

 

Vox Populi

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