Um dia em Khinalug, nas montanhas do Azerbaijão

Pastor com suas ovelhas em Khinalug

Reconheço que sou uma pessoa impulsiva. Às vezes essa característica me traz complicações de todo o tipo. Às vezes, porém, resulta em belas surpresas. Foi graças a minha impulsividade que decidi fazer um passeio para as montanhas do Azerbaijão, mais especificamente para a vila de Khinalug (ou Xinaliq), considerada a mais alta da Europa. Era o passeio mais longo, demorado e caro oferecido pela agência de turismo em Baku, a Tes Tour. Mas, quando vi as fotos do lugarejo, cuja existência desconhecia por completo, fiquei louca para conhecê-lo.

Houve alguns acidentes de percurso. O guia azeri, ainda que simpático, era mais simpático ainda com os russos que estavam em maioria no grupo. Isso fazia com que cada parada demorasse uma eternidade entre baforadas de cigarro – que detesto – e conversas que eu nada entendia. Outro problema que também me aflige nesses lugares mais remotos é o banheiro. Em geral, existem apenas aqueles banheiros de agachar. E eu tenho horror deles! Mas tudo compensou quando, enfim, começamos a subir para Khinalug.

Sabe aqueles cenários de National Geographic, com montanhas elevadas, lugarejos perdidos no tempo, pessoas com rostos marcados pelo clima e pela luta diária em um ambiente inóspito, pastores com suas ovelhas etc? Vi tudo isso. E mais um pouco.

Lindo menino de Khinalug que foi meu modelo por um instante. Ele fez todas as poses que pedi!

No final das contas, acabou sendo um dos pontos altos da viagem, ainda que o dia não tenha transcorrido exatamente do jeito que eu desejava.

O roteiro do passeio

Saímos de Baku em uma van antiga da Mercedes, com decoração, digamos, meio vintage brega. Mas segundo o guia, esse era o único veículo da companhia capaz de subir as montanhas.

Rumamos em direção a Quba e às montanhas que fazem fronteira com a Rússia. Quba parece ser bem interessante e como muita história para contar. Nela existiu uma grande comunidade judaica e a cidade ainda presenciou, em 1918, um massacre de azeris por bolcheviques armênios. A cidade também é famosa por suas maçãs. Queria muito conhecê-la, mas o passeio não a incluía. No entanto, paramos em um supermercado nas redondezas, onde compramos vinho de romã, produzido em toda a região do Cáucaso.

No caminho, passamos por uma região de bosques, com várias churrascarias rústicas ao longo da estrada. Paramos em uma delas para um piquenique. Na verdade, um chá acompanhado de frutas secas.

Piquenique no bosque

Depois começamos a entrar na região das montanhas propriamente ditas, passando por lindos cânions.

Cânions na subida para Khinalug

Antes de chegar em Khinalug, passamos por outras vilas.

Vila nas montanhas do Azerbaijão
Uma das vilas da região de Khinalug, nas montanhas do Azerbaijão

Até pouco tempo, nem existia eletricidade nessa região. Ela chegou há quatro anos, junto com o asfalto. No percurso, ainda vimos muitas ovelhas.

Aliás, nunca vi tanta ovelha na minha vida! Infelizmente, as fotos tiradas da van não fazem jus ao espetáculo que encontramos.

Enfim chegamos a Khinalug.

Khinalug

Khinalug é um dos lugares continuamente habitados mais antigos no mundo. Tribos começaram a se refugiar nessa remota região montanhosa há 5 mil anos e, assim, conseguiram sobreviver a várias invasões. Apesar de sua estrutura um tanto quanto precária até hoje, é uma excelente base para hikings.

Khinalug, vila nas montanhas do Azerbaijão

As casas são feitas de pedras, mas atualmente é proibido construir na região, convertida em reserva natural. A vila possui 380 casas, bem próximas umas das outras, já que o terreno é bem íngreme. Pequenos jardins podem ser encontrados dentro de seus pátios. As casas atuais têm 200-300 anos. Algumas estão em ruínas. Em seu interior, há vários tapetes para aquecer os ambientes. Antes de entrar nelas, deve-se tirar os sapatos.

A temperatura na vila e na região como um todo varia dramaticamente durante o ano. O resultado pode ser visto no rosto castigado pelo clima das pessoas. Um homem de 40 anos pode aparentar 60.

A atividade principal é a criação de ovelha, mas seu artesanato também é famoso. Uma diferente técnica de tecelagem foi desenvolvida na região. Os xales de lã nela produzidos são bastante conhecidos na região de Quba. Khinalug também é famosa por suas ervas, que são coletadas e secas e, depois, servem para temperar a comida. No verão, começa a produção de mel. Dizem ser o mel de Khinalug inconfundível pelo sabor e odor. Os locais dizem que se trata de um remédio que cura até setenta doenças.

Os habitantes de Khinalug

Khinalug tem uma população de 2 mil habitantes, que falam uma língua própria, de pronúncia difícil para os próprios azerbaijanos. Segundo estudos linguísticos realizados na região, foi verificado que eles possuem 72 letras! Não foi à toa que o nosso guia, que já esteve na região tantas vezes, não conseguia pronunciá-las, para diversão das crianças que tentavam ensiná-lo.

Os habitantes de Khinalug preservaram seu estilo de vida tradicional. Casamentos e outras cerimônias são realizados em estrita conformidade com os antigos rituais, repassados de geração para geração. Esses rituais estão estreitamente relacionados aos fenômenos naturais.

Moradora de Khinalug

Atualmente, são sunitas, embora no passado tenham sido adeptos do Zoroastrismo. Existem dez mesquitas na vila. Traços do Zoroastrismo, porém, podem ser encontrados no santuário de Burj, construído no século VII. A cidade ainda está cercada por cavernas, pirs (lugar sagrado ou altar, em azeri), templos e ateshgahs (os locais zoroastristas de oração, em azeri).

Mitos regionais

Alguns nativos dizem que a região estaria ligada à Arca de Noé. Seria aí que Noé teria lançado sua âncora e mandado todo mundo desembarcar. A mesma história é contada na Armênia, só que, lá, a Arca de Noé teria atracado no Monte Ararat. Controvérsias à parte, fato é que conchas e restos de peixes foram descobertos a 2.300 de altitude, o que prova que a região, um dia, já esteve embaixo d´água.

Outra curiosidade local é que um de seus moradores, o caçador Babaali Babaaliyev, afirma ter visto o Abominável Homem da Neve em 1988, quando cochilava em uma caverna da região. Desde o suposto encontro, o caçador nunca mais se recuperou do susto.

O almoço na casa de uma família local

Chegando em Khinalug, fomos direto para a casa de uma família local, que preparou nosso almoço. A mesma família também oferece hospedagem e passeios pela região. O cartaz em inglês, mencionando os tours, era muito divertido. Pena que não tirei foto dele. A família, no entanto, quase não fala inglês. Sorte que os sorrisos existem!

Família que nos recebeu para o almoço em Khinalug

A região é tão remota que nem mesmo Baku essa família conhecia até pouco tempos atrás. Acabaram indo há dois anos, mas por um motivo muito triste. A filha deles teve uma doença neurológica, que a paralisou totalmente (ela não conseguia se movimentar, nem falar). Por isso, ela teve que ser tratada na capital. Hoje ela está bem, embora a doença lhe tenha deixado algumas sequelas. Pelo menos, hoje em dia, ela fala pra caramba!

O costume local é se sentar no chão para fazer as refeições. No entanto, na casa onde almoçamos havia uma mesa grande, onde o grupo inteiro pôde acomodar-se.

A bela vista de Khinalug a partir da casa em que almoçamos

O almoço estava bem gostoso. A culinária deles tem como base a proteína animal, por motivos óbvios: é muito difícil cultivar frutas e verduras naquele clima e altitude. O queijo de ovelha estava especialmente saboroso, assim como o frangão (um tipo criado só lá) que comemos. Tudo isso foi acompanhado do vinho de romã que compramos no supermercado de Quba.

Depois visitamos o pequeno museu da cidade, o Museum of Khynalyg History and Ethnography, criado em 2001.

Museu de Khinalug

Nele, você pode tocar e pegar todos os objetos.

Depois disso, chegou a hora de ir embora. Infelizmente. Queria ter explorado muito mais a região, verdadeiro paraíso para fotógrafos e aspirantes a fotógrafos, como eu. Queria ter fotografado mais seus moradores, sua rotina diária, suas casas.

A vida em Khinalug
A vida em Khinalug
A vida em Khinalug
A vida em Khinalug
A vida em Khinalug
A vida em Khinalug

Queria ter fotografado os pastores com suas ovelhas. Queria ter tirado uma panorâmica da vista. Mas não foi dessa vez, graças ao nosso guia que, para meu desespero, não saía do lugar e não parava de fumar e bater papo em russo. Que coisa irritante! Pelo menos ele nos ofereceu esta bela imagem na volta para Baku e consegui perdoá-lo um pouquinho:

Crepúsculo nas Montanhas do Azerbaijão

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Vox Populi

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