O misterioso e enigmático Khor Virap

Khor Virap e Monte Ararat ao fundo

O lugar que estava mais ansiosa para ir na Armênia era a Khor Virap. Em tese, é o melhor ponto para se ver o Monte Ararat. Fiquei angustiada em saber se o tempo estaria bom ou não. Embora a névoa encobrisse o monte, ainda deu para ver um pouquinho dele, o que me deixou feliz. E o lugar é muito bonito. E enigmático!

Prisão de segurança máxima

Khor Virap quer dizer “cela profunda”. Foi aí que Gregório, o Iluminador, responsável pela conversão do Rei Trdat III ou Tiridates ao Cristianismo, ficou preso. Antes, o lugar havia sido um templo pagão e, depois, uma prisão para os criminosos mais perigosos.

Khor Virap

Gregório era filho de um inimigo do pai do rei. Quando retornou da Capadócia para a Armênia com o objetivo de evangelizar o país, foi ordenada a sua prisão em Khor Virap, que era o presídio de segurança máxima da época. Os presos mais perigosos eram levados para lá e jogados em calabouços, onde não eram alimentados, nem recebiam água para beber. Só que uma mulher descobriu uma passagem secreta e, por meio dela, forneceu alimentos e água para Gregório, que assim conseguiu sobreviver durante os diversos anos em que ficou preso. Depois disso, o rei ficou doente e somente Gregório conseguiu curá-lo. Emocionado, o rei converteu-se ao Cristianismo e o adotou como religião de estado.

Dá para descer até o calabouço onde Gregório ficou preso, mas desisti, porque havia muito trânsito na escada e, confesso, sou meio claustrofóbica.

Como um todo, achei que o complexo tem um quê de misterioso, enigmático. Não sei é porque parece ser meio longínquo, estar no meio do nada, ou se é por causa da proximidade da montanha. Também contribuiu para essa sensação o fato de que visitei Khor Virap em um domingo, um pouco antes da missa.

Preparativos para a missa em Khor Virap

Acompanhei seus preparativos e os meninos e meninas, devidamente trajados, chegando para a liturgia. Como a igreja era pequena, não cheguei a assistir à missa, mas pude ouvi-la enquanto passeava pelo complexo, que não é muito grande.

Fronteira complicada

Outro ponto interessante de ir ao local nem se relaciona com religião, mas sim com geopolítica, já que, em Khor Virap, pode-se ver a primeira linha da fronteira. Trata-se de uma faixa de terra que pode ser acessada somente pelos moradores do vilarejo devidamente autorizados. Depois, vem o rio Arax, que separa efetivamente a Armênia da Turquia.

A linha da fronteira vista de Khor Virap

Nessa zona, há russos também, já que ela fazia a fronteira da Turquia com a antiga União Soviética. Do outro lado, há sobretudo curdos. Muitos curdos e turcos têm origem armênia, mas ou a esqueceram ou praticam seus costumes em segredo. A origem disso remonta a vários séculos atrás, quando os armênios ocupavam grandes nacos do território que hoje faz parte da Turquia. Começaram a ser massacrados e expulsos, porém, na virada do século XIX para o XX, e, principalmente, em 1915, no episódio que ficou conhecido como “genocídio armênio” que até hoje os turcos se negam a reconhecer.

Como já mencionado, é de Khor Virap que se tem a melhor vista para o Ararat, montanha sagrada para os armênios, mas dentro do território da Turquia.

Khor Virap, com o Monte Ararat atrás

Aliás, visitar a parte sul da Armênia envolve não somente conhecer mosteiros lindos, construídos em lugares cênicos, mas também observar o que já foi uma zona de guerra. Isso porque não só a fronteira com a Turquia se encontra fechada, mas a com o Azerbaijão também, em razão do conflito com relação a Nagorno Karabakh, que os armênios chamam de Artsakh.

Vestígios de uma zona de guerra

A fronteira com a Turquia encontra-se relativamente tranquila no momento. Na fronteira com o Azerbaijão, porém, a história é bem diferente. É frequente o relato de snipers atirando para o outro lado. Tão preocupante é a situação que os russos colocaram recentemente soldados na fronteira, a fim de conter o combate. A situação da Rússia, nesse caso, é completamente esdrúxula, já que o país prometeu proteger tanto a Armênia quanto o Azerbaijão em caso de agressão externa. Como a Rússia não pode lutar a favor de um sem contrariar o outro, o melhor que ela pode fazer é impedir que eles se agridam.

Na região há várias construções abandonadas, como postos de gasolina. Podem ser avistadas, da estrada, trincheiras e casamatas. Ainda assim, as pessoas levam suas vidas vendendo o que produzem ao longo da rodovia que, um dia, já fez parte da rota da seda.

Caverna dos Pássaros

Caverna dos Pássaros

Ainda na região sul está localizada a Caverna dos Pássaros, assim conhecida porque os pássaros fazem ninhos em seus nichos. Na realidade, trata-se de um complexo de cavernas que foi ocupado há milhares de anos. A sua descoberta ocorreu quando uma arqueologista encontrou, em sua entrada, o pé direito de um sapato antigo de couro. Inicialmente, acreditou-se que o sapato era do período mongol. Depois dos testes de datação, concluiu-se que era de 3500 a.C., tornando-o sapato de couro mais antigo do mundo. Ele pode ser visto, atualmente, no Museu de História da Armênia, em Yerevan.

Durante as escavações, foram encontradas também ânforas que provam a produção de vinho no local há 6 mil anos. Assim, segundo os armênios, são eles os primeiros produtores de vinho do mundo, e não os georgianos, que alegam terem encontrado uvas de 8 mil anos atrás. (Deixo a controvérsia para os especialistas resolverem).

Há muito ainda por escavar na caverna, mas a Armênia não tem recursos financeiros para tanto, contando apenas com arqueólogos voluntários que trabalham por um mês no sítio arqueológico durante os meses de verão.

Areni e o vinho armênio

Na região também pode ser visitada a vinícola Areni, que produz vinhos com esse tipo de uva, existente somente na Armênia. Ela ainda produz vinhos com várias frutas, incluindo romã e framboesa.

Vinícola Areni

Fizemos uma degustação no local, que envolveu uns catorze tipos de vinhos diferentes.

Não preciso dizer que saí de lá meio bêbada… E o asfalto ondulado da estrada não colaborou em nada com o meu estômago.

Outros passeios

Gostaria de ter visitado os Mosteiros de Noravank e de Tatev, que ficam mais ao sul. O último foi recomendado por todo mundo com quem conversei na Armênia, mas estava totalmente fora do meu radar e não consegui encontrar tempo para ir até lá. Lá está a linha de teleférico mais extensa do mundo. A Envoy Tours faz um passeio de dois dias por toda essa região, incluindo Khor Virap.

Pelo menos, tenho uma boa desculpa para voltar à Armênia!

Nagorno-Karabakh ou Artsakh

Há também a possibilidade de fazer um tour de dois dias para Nagorno-Karabakh, que os armênios chamam de Artsakh. NÃO o recomendo, porém, caso queira ir para o Azerbaijão no futuro, já que no pedido de visto é perguntado se o solicitante visitou a região (acredito que o visto seja negado no caso de resposta positiva).

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Vox Populi

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