Micenas e a família mais disfuncional da Grécia

Porta dos Leões, insígnia da Casa de Atreu

Por 400 anos (de 1600 a 1200 a.C), o reinado de Micenas (letra C do Roteiro ao Peloponeso) foi o mais importante da Grécia. Seu rei Agamemnon e outros personagens a ele relacionados serviram de inspiração para a Ilíada e a Odisseia, de Homero, e para a trilogia Oresteia, de Ésquilo. Justamente por isso, o período é conhecido como “Idade dos Heróis”.

A cidade de Micenas era considerada puramente ficcional, até que, no século XIX, o arqueologista Heinrich Schliemann descobriu suas ruínas.

A origem do nome Peloponeso

De acordo com Homero, Micenas foi fundada por Perseu, filho de Zeus com a mortal Danae, o mesmo que matou a Medusa. Mais tarde, a dinastia de Perseu foi substituída por Pélope, que deu origem à amaldiçoada Casa de Atreu. Há intriga nessa família para ninguém botar defeito: traições, incesto, assassinatos, matricídio e até canibalismo!

Tudo começou com Tântalo, filho de Zeus, que matou seu filho Pélope e o deu de comer aos deuses. Só que os deuses perceberam, ficaram bravos com Tântalo, mandando-o para o Tártaro (subterrâneo), e juntaram os pedaços de Pélope, ressuscitando-o.

Já adulto, Pélope se apaixonou por Hipodâmia, filha de Enomau, rei de Pisa. Uma profecia dizia que Enomau seria morto pelo seu futuro genro. Ele então organizou corridas de carruagens para os pretendentes de sua filha. Quem ganhasse dele, poderia casar com Hipodâmia. Quem perdesse, porém, seria morto. Enomau sempre ganhava, mesmo porque ele contava com a ajuda do deus Ares e do condutor Mirtilo. Pélope tinha à sua disposição os cavalos dados por Poseidon. Ainda assim, convenceu Mirtilo a sabotar as rodas da carruagem de Enomau, prometendo-lhe metade do reino e a primeira noite com Hipodâmia.

Durante a corrida, quando Enomau estava prestes a alcançar e matar Pélope, as rodas de sua carruagem se soltaram e ele foi arrastado pelos cavalos até morrer. Assim Pélope ganhou a corrida, a mão de Hipodâmia e virou rei da Peloponesia. Essa vitória está, inclusive, representada em um dos frontões em exposição no Museu Arqueológico de Olympia.

A corrida de carruagens entre Pélope e Enomau (Museu Arqueológico de Olympia).

Eis a origem do nome da península, Peloponeso, que quer dizer “Ilha de Pélope”.

Pélope, contudo, descumpriu a promessa feita a Mirtilo, matando-o porque este teria tentado estuprar Hipodâmia. Enquanto morria, Mirtilo jogou uma maldição contra Pélope e toda a sua família.

E o que aconteceu depois? Cenas do próximo episódio a seguir…

A família mais disfuncional da Grécia

Pélope teve dois filhos com Hipodâmia: Tiestes e Atreu. Tiestes teve, com sua irmã Pelopia, um filho, Egisto. Por sua vez, Atreu teve dois filhos, os famosos Agamemnon e Menelau, que se casaram com as filhas do rei de Esparta, Clitemnestra e Helena respectivamente. Helena fugiu com Páris, filho do rei Príamo de Troia, levando suas riquezas com ela. Agamemnon uniu todos os príncipes gregos, buscando vingança contra Troia.

Entrada de Micenas pela Porta dos Leões, insígnia da Casa de Atreu.

Mil navios de guerra gregos zarparam em direção a Troia. Ventos adversos, porém, impediram que chegassem a seu destino. Isso porque, Artemis, deusa da caça, estava furiosa com Agamemnon, pois este dizia que era o melhor caçador. Para fazer as pazes com a deusa, Agamemnon sacrificou sua filha, Ifigênia. Os ventos bons voltaram e os navios chegaram a Troia. Depois de um cerco a Troia que durou dez anos, os gregos, sob a liderança de Agamemnon, retornaram vitoriosos para casa.

Só que a vitória de Agamemnon não durou muito, porque, ao chegar em Micenas, foi assassinado por sua esposa Clitemnestra, enraivecida por causa do sacrifício de sua filha, e pelo amante dela, Egisto, sobrinho de Agamemnon. Orestes e Electra, filhos de Agamemnon, vingaram a morte do pai, matando Clitemnestra e Egisto. Orestes foi então julgado pelo primeiro júri que se tem notícia na história. Como o julgamento terminou empatado, Atena decidiu em seu favor, pondo fim ao ciclo de revanches e à maldição da Casa de Atreu.

Ufa! Que família!

Micenas, finalmente!

Voltando a Micenas, ela consistia em uma cidadela fortificada em cima de um monte. Dizem que sua estrutura era tão imensa que teria sido construída pelos Cíclopes, gigantes de um olho só. A famosa Porta dos Leões, de aproximadamente 1200 a.C, está logo na entrada. Acredita-se que os leões eram a insígnia da Casa Real de Atreu, pai de Agamemnon. É emocionante passar por ela, ainda que os leões tenham perdido a sua cabeça depois de tantos séculos.

Já dentro da cidadela, podem-se ver as ruínas do cemitério real, das casas e do palácio.

Ruínas de Micenas.

Também passa-se pelo local de descobrimento de um dos mais importantes vasos encontrados na região, pois mostra um guerreiro da época. Continuando pela cidadela, chega-se ao portão posterior, por onde, acredita-se, Orestes escapou após matar sua mãe.

Tesouro de Atreu, em Micenas.

Outro ponto interessante a ser visitado é o chamado Tesouro de Atreu ou Tumba de Agamemnon, que fica um pouco antes da entrada do sítio arqueológico da cidade antiga.

Trata-se de um tolo, uma tumba abobadada, que data aproximadamente de 1300 a.C. As suas proporções permitiram que o arqueólogo Schliemann recebesse aí o imperador brasileiro dom Pedro II, para almoçar no seu interior durante sua visita às escavações arqueológicas.

Há no complexo, ainda, um museu que conta sobre as escavações e exibe alguns projetos encontrados e réplicas de outros cujos originais se encontram atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

O colapso de Micenas

O colapso dessa civilização se deu por volta de 1100 a.C., com a invasão dos dórios. Deu-se início ao período conhecido como Idade das Trevas, de isolamento e instituição das comunidades gentílicas, em que havia a coletivização da produção e dos bens. Posteriormente, com o crescimento populacional, esse sistema também ruiu. Surgiram, então, as pólis (cidades-estados), com a formação de uma elite social, econômica e militar que passou a governar as cidades. A esse período, conhecido como Arcaico (entre 800 e 500 a.C.), seguiu-se o Período Clássico, entre 500 e 388 a.C., e é justamente essa época de ouro da Grécia Antiga a que mais conhecemos atualmente.

No entanto, ao visitar Micenas, é impossível não sentir o impacto dos mitos gregos. São tantos nomes que ouvimos desde criança de repente tomando vida: Agamemnon, Clitemnestra, Orestes, Electra, Menelau, Helena, Páris… Se esses personagens existiram de fato, ainda mais na forma contada por Homero e Ésquilo, já não sei. Mas, em Micenas, a sua presença torna-se quase palpável.

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Vox Populi

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