O divertido tour soviético de Yerevan

A estátua de David de Sassoun. O cavalo tem um rabo meio estranho...

Em Yerevan, resolvi fazer o tour soviético oferecido pela Envoy Tours. Não foi o primeiro do tipo na minha vida. Também participei de um em Vilnius, capital da Lituânia, além de ter visitado um bunker antinuclear na Letônia, uma base para submarinos invisíveis ao radar na Estônia, e vários museus da ocupação e prisões soviéticas. Não sei se é por que eu era criança e adolescente durante a Guerra Fria e adorava romances de espionagem do John Le Carré, mas as histórias envolvendo a União Soviética sempre me fascinaram.

Todo o tour foi feito em uma van detonada da época, para já ir entrando no clima.

A antiga van em que se faz o tour.

Seria mais charmoso chamá-la de “vintage”, mas a lembrança do cheirinho dela me impede de fazê-lo.

Praça da República

Começamos o passeio pela Praça de República, o ponto central de Yerevan.

Praça da República com Museu ao fundo.

Antes, era chamada Praça Lênin. Uma estátua do líder soviético foi retirada do local após a independência e os armênios ainda não sabem quem colocar no lugar. Segundo a guia, a divertida Arpeni, a pessoa com origem armênia mais famosa da atualidade é a Kim Kardashian e os armênios não teriam recursos para pagar pelo material necessário para fazer suas curvas.

Todos os prédios ao redor foram construídos na era soviética e possuíam funções governamentais. No prédio onde atualmente estão os Museus de História da Armênia e o de Artes, havia também um museu revolucionário.

Estação de trem

A segunda parada foi na estação de trem. Em frente dela, há a estátua de David de Sassoun, herói do folclore armênio que derrotou os árabes, montando um cavalo. Yervand Kochar a esculpiu em 1959.

A estação de trem de Yerevan.

É interessante notar o rabo do cavalo (foto em destaque no início do post). Olhando do ângulo certo, vê-se que o rabo, na verdade, são duas pernas em uma calça folgada saindo do ânus do cavalo. Ou seja, o cavalo está cagando os inimigos da Armênia. Mas as autoridades soviéticas não perceberam a intenção do artista, que somente foi revelada após a independência.

Também não perceberam que o projeto da estação de trem era muito parecido com o desenho das igrejas locais. A maior parte das igrejas na Armênia têm formato cruciforme em seu interior (às vezes no exterior também). E o interior da estação possui a forma de cruz. Vários prédios do período soviético foram criados nesse formato. Com isso, os armênios mantinham, ainda que disfarçada, sua religiosidade.

Estação de trem em formato cruciforme, como várias das igrejas armênias.

A partir da estação de trem, entramos no metrô, onde fizemos um lanche tipicamente soviético, com salgados fritos gordurosos e refrigerante doce e mais artificial que o normal.

Lanchonete vintage?

Depois disso, pegamos o metrô.

Na União Soviética, apenas as cidades com mais de um milhão de habitantes ganhavam metrô. Yerevan não possuía tanta gente, mas pelo menos os que havia eram bem criativos. Os armênios mandaram dados para Moscou aumentando o número da população. Mesmo assim, não ganharam o metrô. Entretanto, em uma visita de Brejnev ao país, os armênios organizaram de propósito um congestionamento terrível, que fez com que ele ficasse três horas parado. Ele voltou dizendo que o trânsito de Yerevan era horrível e autorizou a construção do metrô. Quando descobriu o conto do vigário em que caiu, já era tarde. Contudo, das 36 estações planejadas, somente 10 estações foram concluídas antes do colapso da União Soviética.

Chegando ao paraíso

Descemos então no “paraíso”, que, na época da União Soviética, era a zona industrial, o “paraíso” dos trabalhadores. A maior parte das fábricas se encontra, hoje, totalmente abandonada. O processo industrial soviético, pelo que a guia nos relatou, era meio esquizofrênico. Às vezes, o pé direito de um sapato era produzido em um local e, o pé esquerdo, em outro. Não sei se é exagero ou não, mas que devia ter milhares de ineficiências, disso não duvido.

De qualquer forma, todo esse parque industrial ruiu nos anos 1990. Como retaliação à independência, a Rússia deixou a Armênia sem eletricidade e sem gás e, por causa disso, as fábricas não podiam funcionar. Trata-se de um lugar incrível para ser reaproveitado artisticamente, assim como foi feito em vários espaços de Riga, capital da Letônia, e Tallinn, capital da Estônia. Espero que algum dia isso aconteça!

Chegando em Bangladesh?!

A parada seguinte do tour foi no mercado no bairro conhecido como Bangladesh. O mercado mais conhecido de Yerevan é o G.U.M., que seria o mercado Nutella da cidade. Já o de Bangladesh é mais raiz. (Que bobagem essa divisão do mundo entre Nutella e raiz, mesmo porque adoro Nutella; mas, enfim, serve para descrever a diferença entre os dois.)

O mercado de Bangladesh.

A origem do nome do bairro se deve a um armênio que acreditou na propaganda oficial e aceitou ser mandado para um dos apartamentos fornecidos pelo governo nessa região da periferia de Yerevan. Quando chegou, o armênio achou tudo medonho e o bairro muito distante. Mandou, então, uma carta para Moscou reclamando que havia sido enviado para Bangladesh. Uma investigação foi aberta para saber quem tinha sido o funcionário incompetente que havia mandado o pobre do homem para a cidade errada. Demorou um tempo para descobrirem que, na verdade, ele estava vivendo em Yerevan.

No mercado, produtores rurais vendem seus produtos diretamente ao consumidor final. Antes, recebiam do estado. Agora recebem dos compradores, pagando uma taxa de aluguel do espaço para a prefeitura. Os produtos não têm adição de agrotóxicos, que custam muito caro para eles. Por isso, podemos dizer que são totalmente orgânicos. Muitos chefs vão fazer suas compras no local. O interessante é que, na maior parte dos casos, não existem estandes para os produtos, que são vendidos no porta-malas ou na parte de trás das vans dos produtores.

Em frente ao Bangladesh, há um mercado de peças de carros. É por causa dele que os antigos Ladas ainda funcionam.

CCCP

Também visitamos o Conjunto CCCP. Protótipo de um projeto que seria feito em todas as grandes cidades soviéticas, por meio do qual edifícios de apartamentos formariam as letras CCCP quando vistas do alto, o conjunto não foi completado. Apenas um C, formado por onze edifícios, está inteiro.

Ainda que o CCCP não tenha sido completado e que o local não esteja tão bem cuidado, é muito tranquilo.

Por fim, vimos uma cabeça de Lênin, que se encontra no meio de um quarteirão, a única que sobrou em Yerevan. Ela está à venda, para quem tiver interesse.

Todo o tour, além de bastante informativo, permitiu que eu conhecesse um pouquinho a “Yerevan profunda” e tivesse uma noção de como as coisas funcionavam na era soviética.

Humor negro armênio

Também me fez admirar o senso de humor – negro – dos armênios, que, mesmo com tantas dificuldades e tendo sofrido enormemente ao longo de sua história, ainda conseguiam fazer piada. A guia nos contou várias da Radio Yerevan, que satirizava um programa de perguntas e respostas da oficial Armenian Radio. Uma das piadas:

Estátua de Lênin largada em um jardim

“Rádio Yerevan foi perguntada: ‘Uma bomba atômica poderia destruir a bonita cidade de Yerevan?’ Rádio Yerevan respondeu: ‘Em princípio, sim. Mas Moscou é de longe uma cidade muito mais bonita’.”

Essas piadas faziam sucesso no bloco soviético inteiro. Só não entendi como eram veiculadas, já que a Radio Yerevan não existia de fato.

Ao partir de Yerevan em um avião da Aeroflot lotado de crianças chorando e sacoleiros, lembrei-me de outra piada da guia Arpeni. Segundo ela, a Aeroflot (a companhia aérea russa) é uma “flying marshrutka” (a lotação da região). Pelo menos nesse primeiro trecho até Moscou, ela acertou na mosca!

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Vox Populi

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