O genocídio armênio, ferida que não cicatriza

Memorial do Genocídio Armênio

Nesta minha breve vida de viajante, dois lugares me chocaram muito: o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, e um pequeno museu no bairro armênio de Isfahan, no Irã. Os dois lugares tratam da mesma questão: do genocídio. O primeiro, trata do genocídio dos judeus promovido pelos nazistas, enquanto o segundo mostra fotos do genocídio armênio, promovido pelos turcos na Primeira Guerra Mundial. Por isso, achava que já estava mais ou menos preparada para o que iria encontrar no Tsitsernakabend ou Museu do Genocídio Armênio, em Yerevan. Mas não. A riqueza de detalhes de todo o processo do genocídio, que durou mais tempo do que eu pensava, revelou-me um horror maior ainda.

Apesar de todo o desconforto e revolta gerados ao tomar conhecimento de tanto sofrimento, todos esses lugares merecem – e devem! – ser visitados. Gostaria de dizer que eles servem de alerta para que novos genocídios não sejam cometidos, mas sei que isso não é verdade. Novos massacres, com mais ou menos as mesmas caraterísticas, continuam a acontecer. Vide Myanmar, no caso dos rohingyas. Não obstante, temos que continuar tentando aprender com os erros do passado, ainda que esse esforço possa, às vezes, parecer inútil.

O Memorial para as vítimas do genocídio

Antes de tratar do museu em si, começo falando sobre o memorial, construído em uma das colinas de Yerevan.

Memorial do Genocídio Armênio

A ideia de erguê-lo surgiu em 1965, quando o genocídio completou 50 anos. As autoridades soviéticas não queriam permitir sua construção. Uma eventual proibição, porém, iria gerar revolta entre a população armênia. Foi então erguido um primeiro memorial em Echmiadzin e, em 1967, esse outro memorial foi construído em Yerevan.

Ele representa, com um círculo formado por 12 colunas de basalto inclinadas sobre uma chama eterna, as províncias da Armênia Ocidental perdidas definitivamente para a Turquia depois que um tratado de paz foi firmado entre Atatürk e Lênin – o Tratado de Kars. Em todo dia 24 de maio, uma procissão segue até o Memorial, para relembrar o genocídio. Essa data foi escolhida porque foi nesse dia, em 1915, que líderes e intelectuais armênios foram presos e executados por ordem do governo dos Jovens Turcos.

Na sequência, foi ordenada a matança dos homens sãos ou o recolhimento deles em campos de trabalhos forçados e a expulsão de mulheres, crianças e velhos para os desertos da Síria, onde com certeza morreriam de fome e de sede. São basicamente esses massacres que são conhecidos como genocídio armênio.

Museu do Genocídio Armênio

Ao lado do memorial construído em homenagem às vítimas do genocídio ainda nos anos 1960, foi levantado o Museu do Genocídio Armênio, no qual descobri que, antes mesmo do genocídio em 1915, já ocorriam massacres da população armênia, que ocupava grande parte do território turco.

Pior que o genocídio continuou até 1922, sendo que potências ocidentais, como Alemanha e França, observaram tudo sem praticamente fazer nada. Ainda mais terrível é saber que a Alemanha aprendeu algumas práticas que seriam adotadas posteriormente contra os judeus e ciganos.

Nesse processo, crê-se que até um milhão e meio de armênios morreram, número que parece mais absurdo ainda se se considerar que a Armênia tem atualmente apenas três milhões de habitantes e por volta de sete milhões vivendo espalhados por 120 países do mundo. Membros famosos da diáspora: Cher, Andre Agassi, os membros da banda System of a Down, Charles Aznavour, Garry Kasparov, o maestro Herbert von Karayan, o bilionário Kirk Kerkorian e a família Kardashian. Na viagem, também descobri, por um sobrinho dele, que Giorgio Armani era ¼ armênio.

O museu relata em detalhes todas as etapas do genocídio. Não entra muito em detalhes, porém, sobre o massacre pelos turcos de outras minorias étnicas, como assírios e gregos.

As desventuras de Aurora Mardiganian

Aurora Mardiganian

O museu também conta as desventuras de Aurora Mardiganian. Ela tinha apenas 14 anos quando foi forçada a marchar junto com sua família para a Síria. Durante a marcha, viu cada membro familiar ser assassinado brutalmente e acabou sendo colocada em um harém turco.

Ela conseguiu escapar, mas foi capturada por vendedores de escravos curdos. Conseguiu escapar novamente e caminhou 600 km até Erzurum, que havia sido tomada por tropas russas. De lá, foi até Petrogrado (São Petersburgo), onde recebeu ajuda de uma fundação norte-americana para os refugiados armênios e sírios emigrarem.

Chegando aos Estados Unidos, Aurora relatou sua experiência. O relato acabou virando o filme Ravished Armenia, estrelado por ela própria, que morreu em 1994.

Inspirado na sobrevivente, em 2016 foi criado o Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade, conferido a personalidades cujas ações tenham tido um impacto excepcional na preservação da vida humana e no avanço das causas humanitárias. A primeira premiada foi Marguerite Barankitse, fundadora da Maison Shalom (Casa da Paz) e do REMA Hospital, no Burundi.

O julgamento dos genocidas

Também me surpreendi ao ler, no museu, que os Jovens Turcos que ordenaram o genocídio chegaram a ser condenados e sentenciados à morte. Foi o primeiro julgamento da história desse tipo. Só que as sentenças foram posteriormente anuladas e os mentores do genocídio permaneceram livres.

Foi então organizada a Operação Nêmesis. Armênios que falavam e se passavam por turcos, em ações que me fizeram lembrar às do Mossad quando capturaram oficiais nazistas, localizaram os condenados e os assassinaram.

Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o genocídio, pode assistir ao filme A Promessa, com Oscar Isaac, que está disponível no Netflix. Não é nenhuma obra-prima, mas mostra os principais fatos e ainda enfoca a resistência armênia em Musa Dagh, uma montanha no litoral da Turquia.

Armênia musical, tanto na dor quanto na alegria

Todas essas experiências causaram grandes feridas nos armênios que ainda não foram curadas. Talvez seja essa a razão porque algumas de suas músicas são tão melancólicas. Não dá para deixar de sentir sua dor ao ouvi-los cantando no arco que emoldura o Monte Ararat ou no Memorial das Vítimas do Genocídio. Ainda me emociono ao ver os vídeos que gravei…

Mas, apesar dessa dor, os armênios também são um povo alegre, que curte a vida e ainda gosta de cantar e dançar. É só andar nas ruas de Yerevan para constatar isso.

E não importa a idade!

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