Pedal da vida

Pedal da vida. Grafite de Berlim, Alemanha.
“De repente eu me vi e vi o mundo.” Um sopro de vida, Clarice Lispector. Grafite de Berlim, Alemanha.

Juntei todos os motivos para desistir de ir, alguns reais e outros totalmente fantasiosos. Em alguns momentos o medo quase me venceu, confesso. No entanto, a curiosidade para entender o porquê de tanta resistência foi maior, sem mencionar que há tempos desejava saber qual era a sensação de participar de um pedal noturno, com diferentes pessoas e trajetos fora de minha rota.

Uma superação por dia, pensei. Tudo bem que naquela tarde já havia cumprido minha meta diária, mas eu precisava buscar uma resposta que poderia estar presente no evento daquela noite.

Cheguei em casa, olhei a bicicleta, verifiquei se os pneus estavam cheios, se a iluminação funcionava… olhei o relógio. É preciso sair para ir com calma e chegar a tempo. Não me deixei pensar mais uma vez e saí.

Saí e já tive de enfrentar o trânsito para chegar ao ponto de encontro do pedal. Quase nove quilômetros de percurso, sendo que um trecho teria de andar no meio dos carros, foram percorridos com um pouco de receio, porém vencidos.

Ponto de encontro: Praça do Ciclista, cruzamento da avenida Paulista com a Consolação. Um grupo de mulheres já estava aguardando e me acolheu com um grande sorriso no rosto… Ah, eu mencionei que o pedal era composto apenas de mulheres? Não? Pois é, o evento foi o primeiro pedal das Bike Anjas de São Paulo e percorreria um trajeto que eu nunca havia feito de bicicleta: descer a Consolação, ir até o Parque da Água Branca e retornar pelo Elevado Presidente João Goulart, subir a Consolação e finalmente chegar ao ponto inicial.

Conduzida pelas Anjas, chegar ao parque foi muito tranquilo, sem qualquer esforço físico já que era praticamente descida, mas a volta seria um desafio um pouco maior. Maior, porém muito mais divertido e interessante. Subir o Elevado fechado naquele momento para carros foi inesquecível: passar por janelas iluminadas, jardins verticais, sentir a cidade e o que há de melhor que ela pode oferecer… Superar a avenida Consolação até a Paulista e chegar satisfeita por ter finalizado o trajeto. Foi um passeio mágico para mim, magia que ainda não tinha acabado, pois teria de percorrer o caminho de volta para casa. Até poderia voltar de metrô, mas aí qual seria a graça? Senti que a energia ainda estava em mim e que teria condições de pedalar mais um pouco.

E foi a melhor escolha que eu fiz.

Com os trechos de ciclovia calmos e poucos carros nas ruas, me deixei levar por todas as sensações que surgiram naquela noite tão gostosa. O vento estava fresco, o silêncio da noite começava a tomar conta de tudo e o aroma das damas-da-noite perfumavam o meu trajeto de volta. Eu estava sozinha naquele momento, mas não me sentia só porque finalmente eu havia encontrado uma das respostas que tanto procurava: será que eu realmente gosto de pedalar ou teria sido isso uma atividade que me fora imposta?

Naquele caminho de volta, ouvindo tudo o que eu tenho para me dizer, cheguei a uma certeza sobre do que gosto e o que sou. Gosto de pedalar, sou um pouco bicicleta.

Absorvi tudo que se aproximava e se afastava de mim naquele momento… E agradeci, agradeci muito pelas situações que estava vivendo, pelo o que tenho aprendido e por todas as pessoas que, mesmo sem perceber, fornecem magia ao mundo.

Cheguei ao apartamento repleta de pensamentos e sensações. Queria dividir tudo aquilo com alguém, mas ninguém estava ali… Então dividi com o universo a grande descoberta do dia: sou um pouco bicicleta.

 

Vox Populi

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