Sabático Vicioso

Balões, Capadócia, Turquia.
Balões no céu de Capadócia, Turquia.

Há dois anos eu peguei um avião e fui viajar por seis meses. Sabia por que havia optado por viajar, o que estava procurando e do que estava disposta a abrir mão para alcançar o objetivo. No entanto, só tinha certeza de onde começaria minha jornada, pois, por mais que o roteiro estivesse traçado na minha mente, estava disposta a incluir ou retirar destinos conforme os dias avançavam, as vontades surgissem e a intuição se manifestasse.

Por que tomei essa decisão?

Orloj, Praga, República Tcheca.
Orloj, o relógio astronômico medieval em Praga, República Tcheca.

Antes de viajar, eu estava com dificuldade em me sentir leve e tinha a impressão de que a vida estava sendo tirada de mim: via meus sonhos serem realizados pelos outros e me sentia roubada; não tinha ânimo de levantar da cama e me sentia apática; nem via sentido em sair para trabalhar com algo que comecei a duvidar se gostava de fazer e passei a me sentir uma farsa.

Não parecia que estava construindo nada, muito menos contribuindo para melhorar meu entorno. Estava desencaixada e meu espaço parecia tão reduzido que comecei a me sentir presa e sufocada. Meu mundinho – coloquem aqui todos os significados e ironias que quiserem – estava tão pequeno que, para ampliá-lo, tive de tomar uma atitude bastante concreta: ir para o mundo.

E, para começar, tive de tomar algumas atitudes que pudessem me tirar da apatia e me colocar no caminho que havia escolhido:

  • Admitir para mim, família, amigos e quem mais estivesse pela frente que a forma de vida que eu levava não me atendia mais. Esse foi o primeiro passo para me comprometer (e mostrar o comprometimento) em mudar o que não me agradava.

    Grafite, Paris, França.
    Grafite em Paris, França.
  • Pedir demissão. Por mais que eu tentasse, não encontrei forma que pudesse me manter bem estando em um emprego que, me parecia, sugava toda a minha energia. E por mais que ele me desse um pouco de conforto financeiro, não me deixava mais próxima daquilo que eu desejava.
  • Sair da zona de conforto. Eu que sempre fui muito certinha e gostava de programar e organizar meus dias, tive de aprender – e ainda estou nesta lição – a viver sem me prender aos “confortos” da vida. Só assim o imprevisível, a mudança, a transformação e o espetacular podem encontrar espaço para se aproximar. Porém, alerto, nem sempre o novo será agradável ao primeiro contato, às vezes, nem no segundo, terceiro… mas vale a pena.
  • Encarar medos. É uma consequência ao sair de sua zona de segurança. Às vezes, você percebe que tem medo de coisas que nunca havia pensado. Outras, que o medo estava apenas na sua mente.
  • Enfrentar a saudade mesmo antes da viagem. Pode ser que isso tenha acontecido somente comigo, mas a saudade da família e amigos surgiu antes de a viagem começar… Sem mencionar o aperto no coração de saber que ficaria longe de meu sobrinho de apenas 2 anos. Minha grande dúvida era: será que ele vai se esquecer de mim?

Fui, voltei. Onde estou?

Sabático.
Jardim de Tuileries, lugar propício para descansar os pés e recarregar a energia antes de continuar a caminhada.

Uma vez enfrentadas essas tarefas, respirei fundo e fui. A jornada começou em Paris, percorri algumas cidades da Europa, cheguei à Turquia, fui parar no Sudeste Asiático e retornei para uma fria capital francesa, de onde voltei para casa, São Paulo…

Há pessoas que pensam que o período sabático são férias prolongadas. Bem, isso pode ser real para algumas pessoas, mas para mim foi bem mais intenso. Saí do Brasil disposta a ampliar meus horizontes e receber tudo o que a viagem pudesse me fornecer, e não foi pouca coisa. Enfrentei diversos acontecimentos que chacoalharam minha forma de viver e ver o mundo e alcancei um objetivo que estava procurando: um propósito de vida que somente passei a ter uma leve consciência de como realizá-lo ao me distanciar do que me era óbvio e sentir o mundo por outros olhares… Já faz um tempo que a viagem acabou e, agora, pretendo, sem pegar um avião, apresentar e refazer esse trajeto tendo você como companhia.

Alguns podem dizer que isso seria viver no passado, um apego que não quer se desfazer. Eu tenho outra versão: esta seria a primeira vez que retomaria todo o processo, seria um reencontro de respeito e afetuosidade com uma viagem bastante significativa e uma tentativa de observar por outra perspectiva para o trajeto que mudou meu percurso.

Eu conto minha experiência, me revelo um pouquinho e, para não esquecer o mais importante, sempre com dicas de viagem!!!! Agora basta respirar fundo e partir.

Batu Caves, Murugan, Kuala Lumpur, Malásia
Batu Caves com a gigantesca escada de Murugan e a não menor escada para se chegar ao templo. Kuala Lumpur, Malásia.

Vox Populi

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