Um giro pelos países do Cáucaso Sul

Visitando os exóticos Azerbaijão, Geórgia e Armênia

Kazbegi, na Geórgia

Sabe a Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, em que João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém? O Cáucaso Sul (o norte fica na Rússia) ou Transcaucásia me fez, de certa forma, recordar dessa poesia. A Armênia não gosta do Azerbaijão que adora a Turquia que não gosta da Armênia que adora a Rússia, que é adorada pelo Azerbaijão também, mas de quem a Geórgia não gosta muito, assim como o Azerbaijão também não gosta da Armênia.

Toda essa complicação geopolítica nos países do Cáucaso ocasiona alguns problemas ao turista. Não se pode, por exemplo, ir da Turquia para a Armênia, ou da Armênia para o Azerbaijão. Essas fronteiras se encontram fechadas por causa do conflito envolvendo a região separatista de Nagorno Karabakh.

O turista também é obrigado a responder a várias perguntas na imigração da Armênia se visitou antes o Azerbaijão (meu caso). Acredito que na imigração do Azerbaijão aconteça o mesmo tipo de questionamento. E já no pedido de visto eletrônico para o Azerbaijão (o único país da região que exige visto para os brasileiros) há uma pergunta em que o solicitante deve responder se visitou a região de Nagorno Karabakh. Imagino que o visto seja negado em caso de resposta positiva.

Planejando com cuidado, entretanto, dá tudo certo. E o melhor de tudo: o visitante pode amar a todos igualmente, sem precisar tomar partido nessa complexa quadrilha de amor e desamor…

Roteiro da viagem

Fui primeiro para Baku, capital do Azerbaijão, depois para Tbilisi, capital da Geórgia, e, de lá, para Yerevan, capital da Armênia. Fiz esses trajetos de avião, mas é possível fazê-los de ônibus, minivans ou até mesmo de trem, que, entretanto, são bem lentos. Há ainda tours que fazem a travessia, uma boa opção para quem quer visitar pontos turísticos que ficam próximos às fronteiras entre os países.

Nas capitais, fechei daily tours para conhecer algumas das regiões mais interessantes desses países. Como não são muito grandes (os três juntos são menores que a Grã-Bretanha), os bate-e-voltas se tornam viáveis, embora alguns locais demandem um pouco mais de tempo para serem desfrutados a contento.

Os daily tours são relativamente baratos. No Azerbaijão, fiz dois pela Tes Tour que saíram, no total, por volta de R$ 600,00. Na Geórgia, os quatro tours que fiz pela Holidays in Georgia custaram menos de R$ 800,00. E, na Armênia, realizei cinco tours pela Hyur Service, a um custo total de R$ 650,00, e mais um tour soviético por Yerevan, pelo Envoy Hostel, por R$ 150,00. Todos esses valores são para duas pessoas e alguns dos passeios já incluem almoço.

Para quem quiser gastar pouco e ter um contato maior com a população local, há a opção de utilizar as marshrutky, os micro-ônibus coloridos da região. Não cobrem todos os lugares que visitei, mas dão acesso para a maioria.

Um apanhado sobre o Cáucaso Sul

Na região do Cáucaso Sul, vivem 17 milhões de pessoas. A renda per capita do Azerbaijão é praticamente o dobro da da Geórgia e Armênia. Vi muitos pedintes em Tbilisi, mas não tantos na Armênia. Não me lembro de ter visto algum no Azerbaijão.

O Azerbaijão é predominantemente xiita, mas os azerbaijanos professam sua religião de maneira privada e vi pouquíssimas mulheres com a cabeça coberta. Por sua vez, os georgianos e armênios são profundamente religiosos. Os georgianos seguem o Cristianismo Ortodoxo, enquanto os armênios seguem uma linha cristã própria, a Igreja Armênia Apostólica.

Cada um tem um alfabeto próprio. O único parecido com o nosso é o azeri, semelhante ao turco. Já os alfabetos georgiano e armênio são incompreensíveis para nós. A presença do alfabeto cirílico e da língua russa também é constante. Não é de admirar, dada a grande quantidade de russos nos três países.

A região, que fica entre os Mares Negro e Cáspio, é bem montanhosa. Os picos do Cáucaso são tão altos (acima de 5.000 m) que existem até mesmo estações de ski que fazem sucesso sobretudo entre os árabes do Golfo Pérsico. É comum ver pastores com rebanhos de ovelhas, que, muitas vezes, chegam a ocupar as estradas. Uma atração a mais nesses países já tão interessantes.

Fronteira entre impérios

Dizem ser o Cáucaso a fronteira entre Europa e Ásia, entre Cristianismo e Islamismo. É fato que a região já serviu de fronteira para vários impérios. Tanto que, ao organizar o menu do site, nem sabia se a incluía na Europa ou na Ásia. Há gente que considera a Armênia e a Geórgia como pertencentes ao continente europeu e, o Azerbaijão, ao continente asiático. Contudo, outros entendem que o Azerbaijão também está na Europa e que uma de suas vilas, Khinalug (ou Xinaliq), é a mais alta do continente. Como não queria contrariar ninguém, decidi colocar a região em uma categoria isolada.

Mas, sinceramente, não sinto no Cáucaso a mesma mistura entre Ocidente e Oriente que vi em Istambul, que ainda considero a mais perfeita fronteira entre os dois lados. Não dá para negar, entretanto, que, ao longo do tempo, em virtude de sua posição geográfica, a região recebeu influências multiculturais de todo tipo: grega, romana, persa, árabe, turca, russa… Cada um desses povos deixou suas marcas, tornando essa região uma das mais ricas culturalmente para se visitar.

Na realidade, o que mais me chamou atenção foi um outro tipo de fronteira, aquela que vigorou na época da Guerra Fria e que ainda impera na região. Diferentemente dos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), que comparam os soviéticos aos nazistas e fazem de tudo para se aproximarem do Ocidente, o Cáucaso ainda permanece sob forte influência russa. Que o digam as dezenas de turistas russos com quem cruzei pelo caminho!

Meus highlights

Gostei de tudo o que vi, mas os meus lugares prediletos foram:

No Azerbaijão, as montanhas que fazem fronteira com a Rússia, onde visitei a cidade de Khinalug ou Xinaliq, a mais alta do Cáucaso; passear pelo Bulvar à noite; e os prédios futuristas de Baku, principalmente as hipnotizantes Flame Towers e o Centro Cultural Heydar Aliyev, da arquiteta Zara Hadid.

Centro Cultural Heydar Aliyev
Detalhe do Centro Cultural Heydar Aliyev

Na Geórgia, a fortaleza de Ananuri e a região de Kazbegi, no caminho da estrada militar que liga a Geórgia à Rússia; Mtskheta, a antiga capital georgiana; e a topografia de Tbilisi.

Kazbegi, na Geórgia

Na Armênia, as ruas de Yerevan e o quarteirão soviético onde estava localizado o meu hotel; os mosteiros no lindo parque de Dilijan; e o onipresente, mas elusivo Monte Ararat, que frequentemente se esconde atrás do fog poluído de Yerevan.

Monte Ararat com Khor Virap na frente

Destaco também a comida, em especial a georgiana. Considerada a melhor culinária de toda a União Soviética, a Geórgia ainda mantém a fama. Um de seus pratos principais é o khachapuri, uma torta de queijo que comia todo dia no café da manhã. A torta é servida em diferentes formatos e com diversos ingredientes. Todas as versões são deliciosas. O melhor é que, em qualquer biboca da Geórgia, sempre há um khachapuri confiável.

Fiquei encantada, ainda, com as cores do outono na Geórgia e na Armênia. O outono é definitivamente a minha época predileta para viajar por esses países que ainda têm estações bem definidas.

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