Viagem ao centro de Nantes

O Grande Elefante, principal atração de Les Machines de L'île.
O Grande Elefante, principal atração de Les Machines de L'île.

Meu roteiro sabático inicial era chegar a Paris e lá ficar direto durante um mês. Não abraçava Nantes, mas quando surgiu a possibilidade de inseri-la na jornada não houve resistência, ainda mais porque havia uma chance de percorrer o trajeto Paris-Nantes, e, quem sabe, sul da França de bicicleta (o que não se concretizou, por receios de eu não aguentar e por causa da previsão do tempo que prometia muuuuita chuva).

Não entendia até há pouco tempo por que Nantes havia sido surgido na jornada, porém, depois de apenas três dias em Paris, lá estava eu dentro de um TGV rumo ao oeste francês.

Sexta maior cidade da França, localizada no Vale do Loire, Nantes foi nomeada em 2013 como a Capital Verde Europeia (logo logo você entenderá o porquê), é a terceira maior cidade industrial do país e exemplo perfeito de equilíbrio entre história, herança cultural, inovação, qualidade de vida, economia e arte. Por essa integração e pela forma como foi revitalizada que é considerada uma das melhores cidades para se morar no país.

Bicloo. Nantes. França.
Bicicletas Bicloo.

É possível conhecer Nantes em apenas dois dias – há quem faça um bate-volta –, mas se puder ficar um dia a mais, talvez você encontre atrações que apenas os moradores da cidade acabam tendo o prazer de desfrutar.

A cidade não é muito grande e as principais atrações turísticas ficam relativamente bem perto uma da outra, facilitando um passeio a pé ou de Bicloo, a bicicleta compartilhada da cidade. Mas quem quiser algo ainda mais fácil, procure uma linha verde literalmente pintada no chão, ela passa pelas principais atrações da cidade e tem em torno de 15 quilômetros de distância. Mesmo que valha a pena ter essa linha como guia, dê uma desviada de vez em quando ou estique o olhar para outro sentido e, quem sabe, se maravilhará com alguma cena. Nantes conquista com olhares e sutilezas.

Castelo dos Duques de Bretanha. Nantes. França
Fosso do Castelo dos Duques de Bretanha. Um dos muitos lugares agradáveis para sentar e curtir o clima histórico de Nantes.

Castelo dos Duques da Bretanha

No centro histórico da cidade, encontra-se o exuberando Castelo dos Duques da Bretanha (Château des Ducs de Bretagne). Símbolo arquitetônico e histórico – ao lado da Catedral de Nantes – do período em que o castelo foi residência dos duques bretões no século XV. A construção em pedra calcária possui detalhes góticos, com inspiração renascentista, que contrastam com o rudimento dos pesados blocos de pedra que formam os enormes muros de proteção do forte. É possível percorrer, gratuitamente, todo o corredor que contorna o castelo e liga as torres de vigilância; também pode-se passear livremente pelo pátio. Atualmente, no interior do castelo encontra-se o Museu de História de Nantes.

Castelo dos Duques da Bretanha. Nantes. França.
Castelo dos Duques da Bretanha.
Catedral de Nantes, França.
Catedral de Nantes e suas colunas longilíneas.

Catedral de Nantes

Dedicada a Saint Pierre e Saint Paul, a Catedral de Nantes (Cathédrale Saint-Pierre et Saint-Paul de Nantes) começou a ser construída em 1434 e terminou apenas no final do século XIX. Feita em calcário, fornecendo uma fachada e paredes internas claras, sua construção é repleta de uma atmosfera nobre. Sua linhas verticais aumentam ainda mais sua suntuosidade, dando a impressão de nossa pequenez neste mundo.

A primeira vez que entrei na catedral, me arrepiei diante de tanta beleza.

 

Fachada da Catedral de Nantes. França.
Catedral de Nantes.

Porta Saint-Pierre

Ao lado da catedral, encontra-se um dos vestígios do muro que protegia toda Nantes no século XV, a Porte Saint-Pierre.

La porte Saint-Pierre. Nantes. França.
La porte Saint-Pierre, construção do século XV.

Passagem Pommeraye

Construída na década de 1940, Pommeraye liga duas ruas – rue Santeuil e rue de la Fosse. Abriga diversas lojas e foi declarada monumento histórico em 1976, por sua arquitetura bem preservada.

Passagem Pommeraye. Nantes. França.
Passagem Pommeraye.

Museu Dobrée

Formado por dois edifícios: o Palais Dobrée, de estilo neomedieval, com uma torre de 30 metros de altura, e a antiga residência episcopal La Touche. O Museu Dobrée (Musée Dobrée)  atualmente é um centro de pesquisa e documentação de obras pedagógicas e culturais.

Até 2021 parte do museu estará em reforma, mas o setor de exposições temporárias está funcionando normalmente.

Museu Dobrée.
Museu Dobrée.

Museu de História Natural de Nantes

O pequeno Musée d’histoire naturelle de Nantes deve ser visitado pelos amantes e curiosos da natureza. Além das exposições temporárias, sua exposição permanente abarca botânica, pedras, aves exóticas e até uma ossada de baleia de mais de 18 metros.

Fachada do Museu de História Natural de Nantes. França
Fachada do Museu de História Natural de Nantes.

Teatro Graslin

Construído em 1788 em estilo neoclássico, o Teatro Graslin (Théatre Graslin) atrai o olhar de quem está passando pela praça Graslin. Nantes é uma das quatro cidades francesas que ainda conserva uma sala de ópera do século XVIII.

Teatro Graslin.
Teatro Graslin.

La Cigale

Em frente ao Théâtre Graslin, encontra-se o histórico restaurante La Cigale, aberto desde 1895. O prédio é muito bonito, mas para quem pretende viajar gastando pouquíssimo (como era o meu caso!) não é uma boa opção. Agora, se não quiser deixar passar essa oportunidade, acho que vale a pena sentar em uma das cadeiras do La Cigale e comer tendo a bela praça Graslin como paisagem.

Restaurante La Cigale.
Restaurante La Cigale.
Centro de Nantes, com a Catedral ao fundo

Centro histórico

Com prédios bem preservados, o centro histórico de Nantes é onde se concentram lojas e restaurantes. Tive a felicidade de me acomodar em uma residência nesse lugar e sentir de pertinho o clima da cidade. Não espere nada parecido com o centro de São Paulo! O lugar mesmo de dia é calmo, com ar descontraído e, à noite, é possível dormir no mais absoluto silêncio.

Ilha de Nantes

Guindaste de Titã, na Ilha de Nantes. França.
Guindaste de Titã, na Ilha de Nantes.

É, de fato, uma ilha no meio do rio Loire. A poucos passos do centro histórico, a Île de Nantes é um passeio à parte, por isso vale a pena dedicar um tempinho para conhecer e sentir o clima do local. Seu projeto urbano foi todo pensado para que houvesse união entre qualidade de vida, sociabilidade e economia; e para se alcançar isso a ilha acomoda residências, comércio, educação, áreas de recreação e de cultura.

Isso permitiu que inovação e desenvolvimento sustentável tomassem conta da ilha, contribuindo para que a cidade, em 2009, fosse nomeada uma “cidade ecológica”. Você pode conhecer a ilha de bicicleta ou a pé, há diversas atrações – Les Machines de L’île (As máquinas da ilha), a instalação artística Les Anneaux (Os anéis) e o Guindaste de Titã, por exemplo –, restaurantes à beira do rio e, se preferir, apenas sentar na grama e ficar olhando para o Loire.

As Máquinas da Ilha

Carrossel dos Mundos Marinhos, na Ilha de Nantes. França.
Carrossel dos Mundos Marinhos, na Ilha de Nantes.

Eu ousaria dizer que As Máquinas da Ilha (Les machines de L’île) é um resumo da história de Nantes, projeto que juntou, num antigo estaleiro e atual coração artístico de Nantes, o mundo fantástico de Júlio Verne e as ideias de Leonardo da Vinci – que representariam a história industrial da cidade.

Elaboradas por François Delarozière e Pierre Orefice, As Máquinas da Ilha fizeram parte do plano de restauração da cidade ao convidar população e turistas a admirar e brincar com as 35 atrações do projeto. Dentre as máquinas, o mais surpreendente é o Grande Elefante, um elefante mecânico de 12 metros de altura (equivalente a um prédio de quatro andares) com capacidade de levar até 50 pessoas para um passeio pela ilha.

Também faz parte do projeto o Carrossel dos Mundos Marítimos (Carrousel des Mondes Marins), com seus 25 metros de altura, 22 metros de diâmetro, 85 lugares e capaz de levar até 300 pessoas.

Carrossel das Máquinas da Ilha (Les Machines de L’île).

Os Anéis

Caminhe em torno da ilha e logo você verá a instalação Os Anéis (Les Anneux), de Daniel Bueren e Patrick Bouchain. Composta por 18 anéis de 4 metros de diâmetro, fixados à beira do antigo cais. O objetivo dos criadores é que cada pessoa interprete os anéis da maneira que quiser, mas os artistas usaram como uma de suas referências as correntes que prendiam os escravos que desembarcaram na ilha. À noite, os anéis são iluminados.

Os anéis, de Daniel Bueren e Patrick Bouchain. Nantes. França.
Os anéis, de Daniel Bueren e Patrick Bouchain.

Jardim das Plantas

Museu Júlio Verne. Nantes. França.
Entrada do Museu Júlio Verne.

O jardim botânico da cidade é um lugar superagradável para passar algumas horinhas (pena que não tenho foto para mostrar!). Bem ao lado da estação de trem, o Jardin des Plantes é um local bem cuidado, com diversos bancos espalhados pelo local, nos quais você poderá sentar, pegar um livro, ler e se esquecer naquela atmosfera.

Museu Júlio Verne

O escritor Júlio Verne nasceu em Nantes e, não é de se estranhar, que a cidade preste uma homenagem a ele. O Musée Jules Verne fica em uma casa construída no século XIX, com vista para o rio Loire, na qual apresenta réplica de seu quarto (apesar de Júlio Verne nunca ter, de fato, morado nessa casa), manuscritos, objetos pessoais e diversos outros itens que, de uma forma, inspiraram sua obra.

Memorial da Abolição da Escravatura

Nantes foi local de entrada de milhares de escravos que foram trazidos para a Europa. As 2 mil placas presentes no Mémorial de L’Abolition de L’Esclavage recordam esse terrível período.

Torre Bretanha

Quer ver Nantes do alto? Então este é o lugar!

Cidade feita para pessoas

Não é preciso nenhum esforço para perceber como Nantes é toda projetada para incentivar a relação pessoas-cidade. Darei minha impressão como pedestre e alguém que sempre tenta interagir com o meio. Nantes não tem meio-fio, ou seja, não há diferença de altura entre calçada e rua, o que facilita a locomoção de pessoas com mobilidade reduzida. Há ciclovia por toda a cidade e o respeito entre bicicleta-pedestre-automóvel impera no lugar. Há parques e jardins a cada meio quarteirão (que delícia é se jogar na grama, pegar um lanchinho e degustá-lo!). Há bancos por toda a cidade, então, se você não quer se sentar no chão, tudo bem, lugar para se sentar é que não falta. Os bondes são modernos e silenciosos, interferindo o mínimo possível nos sons da cidade. A cidade é limpa, resultado de educação das pessoas, respeito pelo espaço em que vivem e trabalho público em manter o local agradável. Não precisa dizer muito mais para provar que a cidade é feita para ser sentida, não é?

Projeto Urbano. Nantes. França.
Nantes vista pelo Castelo dos Duques da Bretanha.

Eu não havia pensado quanto eu gostei de conhecer a cidade até começar a rascunhar este texto. Nantes é rica não apenas economicamente, mas sobretudo de vivência. Suas áreas verdes, museus e restaurantes são um convite para sair de casa, mesmo que estiver frio! E, se quiser, é até possível dançar um forrózinho por lá!

Nantes me intrigou por causa de sua relação com as pessoas: foi o primeiro lugar em que experimentei o Airbnb, me deu um primeiro empurrão de dividir um espaço com pessoas que eu mal conheço – mais tarde, cheguei até a abrir minha casa para receber pessoas que eu mal conheço – e é um exemplo de como é possível uma cidade mais humana.

Ao iniciar a escrita deste texto, pensei que o resultado seria bastante objetivo, descrevendo apenas os lugares por onde passei, mas acabei descobrindo uma riqueza de aprendizados que foram iniciados lá… Bem, talvez seja Nantes me ensinando a ser um pouco mais como ela, mais próxima dos outros.

Vox Populi

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