A viagem mais bizarra que já fiz na vida

Testando minha suposta falta de fé em um avião praticamente vazio

O avião vazio em que viajei de Tbilisi a Yerevan

Não costumo ser uma pessoa de fé. Fui criada na Igreja Católica, por insistência de minha mãe, uma cristã fervorosa. Mas a abandonei logo depois de ter cumprido minha promessa de fazer o catecismo e a Primeira Comunhão. Não chego a ser ateia, porque acho que a existência do mundo já é maravilhosa – no sentido de milagrosa – por si só. No entanto, não consigo crer em religião alguma. Há situações, porém, que desafiam meu ceticismo. Enquanto algumas pessoas pessoas têm, vez ou outra, crises de fé, passando a duvidar de seus dogmas religiosos, eu, ao contrário, começo a crer em tudo.

Minha mais recente “crise de fé às avessas” ocorreu em um voo na minha última viagem.

A dúvida

Em outubro de 2017, eu e meu marido fizemos uma viagem pelo Cáucaso Sul, ou Transcaucásia, que integrava a antiga União Soviética. Começamos em Baku, capital do Azerbaijão, e depois fomos para Tbilisi, capital da Geórgia, e, em seguida, para Yerevan, capital da Armênia. Ainda no Brasil, definimos que iríamos de Baku para Tbilisi de avião. Ficamos em dúvida, entretanto, no trajeto entre Tbilisi e Yerevan e a incerteza permaneceu até o dia anterior a nossa partida.

Analisamos várias alternativas. A distância entre as duas cidades é pequena, não chega a 300 km. No entanto, como as estradas do lado armênio não são tão boas e ainda é preciso passar pela imigração dos dois países, que envolve também a travessia de uma ponte em que cada pessoa deve carregar suas malas na mão, o trajeto leva em torno de seis horas.

Pedimos por e-mail orçamentos de transfer e de tours, já que, no caminho, há três mosteiros interessantes, um do lado georgiano e dois do lado armênio. Também vimos onde podíamos pegar minivans e marshrutka (miniônibus, o meio de transporte mais usual nessa parte do mundo) para a Armênia, que seria uma alternativa bem mais barata.

No final das contas, como já estávamos um pouco cansados das estradas, porque já havíamos rodado bastante pelo Azerbaijão e Geórgia e ainda teríamos que rodar mais um pouco pela Armênia, optamos pela solução mais rápida: ir de avião. Conseguimos, na noite anterior, um voo com preço razoável e em um horário bom, que, estranhamente, não tinha aparecido em uma pesquisa anterior que meu marido havia feito.

Um dia além da imaginação

Como nosso voo era só no final da tarde, pudemos acordar calmamente e tomar o maravilhoso café da manhã do Hotel Ibis Styles com tranquilidade. Comi meu último khachapuri (a torta de queijo georgiana, que é servida de diversas maneiras), refletindo sobre como iria sentir falta dele no futuro. Mas nada para me deixar triste. Afinal de contas, naquela noite estaria em Yerevan, que também prometia maravilhas gastronômicas.

Só que aquele dia que parecia perfeito, de repente, começou a ficar tenso. O alarme de incêndio disparou enquanto terminávamos o café da manhã. Seguimos para fora do hotel, a exemplo dos demais hóspedes. Funcionários vieram nos avisar que estava tudo bem, que o alarme havia disparado sem motivo e que podíamos retornar aos quartos.

Foi desconfortável a sensação de subir as escadas – os elevadores ainda não tinham voltado a funcionar – enquanto os demais hóspedes do hotel as desciam, ainda respondendo ao chamado do alarme. Só que, no sexto andar, não havia mais escadas para subir ao nosso andar, o sétimo. Tudo bem, porque notamos que o elevador tinha voltado a funcionar.

Chegamos ao sétimo andar, para ir até o nosso quarto, o 710. No entanto, a numeração acabava no 706. Ué, nosso quarto sumiu? O andar encolheu? Juro, parecia que estávamos em um episódio de Além da Imaginação. Ou de Stranger Things. Ou de Arquivo X. Já até conseguia ouvir a musiquinha…

Enquanto debatíamos todas essas alternativas de ficção científica, percebemos que havia uma porta corta-fogo dissimulada de parede separando o andar. E então, abrindo-a, encontramos o nosso quarto. Ufa!

O mundo voltou ao normal. Sqn

Protesto georgiano

Tudo corria novamente bem até sairmos do hotel para pegar o táxi. Colocando as malas no carro, notamos uma passeata da oposição ao governo atual que estava vindo em nossa direção. Estávamos em plena Praça da Liberdade, local em que os georgianos sempre fazem suas manifestações. Foi por pouco que escapamos do cordão humano que começava a fechar a praça.

Na chegada ao aeroporto, o motorista estacionou o carro e abriu a porta. Meu marido, que estava atrás dele, fez a mesma coisa e… pau! Um carro veio e levou o espelho da porta pela qual ele estava saindo. Inacreditável! Não conseguimos entender por que, com tanto espaço na pista, o motorista achou melhor passar bem rente aos carros que estavam estacionando e deixando seus passageiros. Ficamos olhando um para o outro, sem saber direito o que fazer, mas o taxista e os policiais nos mandaram embora. Ou assim quisemos acreditar. Pelo menos não veio ninguém correndo atrás da gente.

O voo inexistente

Dentro do aeroporto, outra surpresa: o nosso voo não constava no telão. Estranho…

Fui perguntar para um atendente e ele nos mandou passar na frente de todo mundo que estava fazendo check-in para um voo com destino a Moscou, que saía antes do nosso. Não entendi nada e fiquei com receio de furar a fila, mas nenhum russo me xingou. Ou, se xingou, não compreendi. (Pela primeira vez na viagem, vi alguma vantagem em não falar russo, o idioma mais comum na região.)

Entregamos os bilhetes que havíamos imprimido na expectativa de ir logo para o portão de embarque. Só que a menina da companhia aérea não achava a nossa reserva. Esquisito…

Por fim, depois de muito tempo e um interminável debate com seu superior, ela registrou os nossos nomes e nos deu os cartões de embarque. Ela devia estar em treinamento, pensamos.

Subimos logo para a sala de embarque. Lá também não encontramos nenhuma informação sobre o portão em que deveríamos embarcar. Bizarro…

Um pouco antes do horário, porém, ouvimos o chamado pelo alto-falante. Que alívio!

Mas apenas nós respondemos ao chamado de embarque. No ônibus para o avião, entrou um japonês.

E só.

Como assim????

O voo existente

Meu marido guardando a bagagem. Espaço era o que não faltava!

Quando entramos no avião, que tinha um outro nome e não o da companhia área que constava no nosso tíquete, dois homens permaneceram de costas para nós. Pensei: “Que grossos esses comissários de bordo. Não dão nem um good evening!“.

Já havia uma pessoa na classe executiva, o que me deixou um pouco mais tranquila. (Descobrimos depois, porém, que se tratava de um funcionário da companhia aérea cujo nome nem sabia mais qual era.) Na classe econômica, apenas nós e o japonês. Quatro pessoas em um avião que devia ter uns 140 assentos ou mais.

Após alguns minutos, ouvimos o piloto informando que o voo não possuía comissários de bordo e que devíamos afivelar os cintos de segurança. Ou seja, os homens rudes da entrada eram o piloto e o copiloto!

Só então todo o absurdo daquele dia bateu em mim. Repassei em minha mente todos os percalços que nos levaram até aquele avião. E me culpei: “Como pude ignorar todos estes sinais para não embarcarmos? Quem manda não dar ouvidos para o Além?”

Crise de fé às avessas

Com medo de morrer, mas ainda assim apreciando a paisagem.

Confesso que fiquei com muito cagaço. E dei um start na minha fase de apelação. Rezei a oração que meu avô paterno costumava rezar. Tentei me consolar com a ideia de que a atendente da companhia nos deu poltronas na fileira 14, meu número da sorte. Prometi também que, se chegássemos bem, iria acender uma vela em um dos vários mosteiros da Armênia. Também aproveitei para admirar a paisagem pela janelinha do avião e escrever grande parte deste texto. E tudo isso somente em 30 minutos de voo! O que me levou a pensar que talvez fosse verdadeira a afirmação de que uma pessoa revê toda a sua vida antes de morrer.

Oh, não! Será que vou mesmo morrer? Em tom fatalista, concluí que não era possível, ou melhor, não era PROVÁVEL (a probabilidade dava um certo ar matemático para meu desespero irracional) que um dia tão surreal como aquele terminasse bem.

Enfim, depois dessa curta meia hora que durou uma eternidade, chegamos em Yerevan sãos e salvos. Como só nós e o japonês estávamos desembarcando, os funcionários do aeroporto iam abrindo as passagens para nós. Senti-me o próprio Ali Babá, ordenando: “Abre-te, Sésamo!”

Na imigração, tivemos que responder a um longo questionário, pois havíamos passado antes pelo Azerbaijão, que é inimigo da Armênia. Nem me irritei. Estava até feliz de poder conversar com outro ser humano. Na verdade, queria abraçar e beijar aquela moça que me fazia tantas perguntas!

Cumprindo a promessa

Cumprindo a promessa na Igreja de St Gayane

Na maior parte do tempo, considero-me um ser racional, que desconfia de religiões, crendices populares e dogmas em geral. Mas é incrível como viro católica e supersticiosa quando a coisa aperta. Acho até sacanagem minha ficar tirando sarro da fé alheia para depois recorrer a ela em momentos de dificuldade ou de incerteza. Por isso, prometi a mim mesma parar com essa atitude. Todo mundo precisa, vez ou outra, de se agarrar as suas crenças. E quem sou eu para questioná-las?

Não sei se cumprirei esta promessa. Mas a outra, a de acender uma vela em uma igreja armênia, foi devidamente cumprida. E ainda bem que a fiz, porque depois descobri que a companhia em que viajei só tinha sete aeronaves e que uma delas caiu em 2011. Com ou sem fé, é sempre bom poder contar com a ajudinha lá de cima!

E você? O que faria em uma situação como esta? Teria entrado no avião? Ficaria nervoso ou inseguro? Sentiria vontade ou necessidade de invocar algum ser superior? Para quem ou o que você apelaria?

Vox Populi

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