Você é o que outros enxergam?

Dizem que devemos viver sem nos preocuparmos só com o julgamento alheio, e eu concordo. Mas você já pensou como as pessoas o veem? E se essa imagem realmente é você? Você é o que os outros enxergam?

Algum tempo atrás tive de fazer um exercício, proposto num curso, que precisava perguntar para quinze pessoas minhas três características mais marcantes. Exercício nada fácil, uma vez que envolve ego e medo das respostas de como me viam, dos julgamentos. Ciente dos riscos, resolvi iniciá-lo e, para isso, analisei-o e identifiquei três primeiros obstáculos que deveriam ser ultrapassados:

  1. Deixar o ego de lado e estar disposta a ouvir o que pudesse vir.
  2. Escolher quinze pessoas pensando em obter o resultado mais eficiente possível. Para isso, selecionei pessoas de círculos sociais variados: família, amigos íntimos, amigos mais distantes, colegas de trabalho e apenas conhecidos.
  3. Formular a pergunta, tentado deixar a pessoa à vontade para dizer o que vier à cabeça.

Vencidos os obstáculos, enviei a pergunta por e-mail, Messenger ou Whatsapp. Mais da metade das pessoas me retornaram em 1 ou 2 horas. Uma delas, com quem não falava havia mais de ano, me ligou quase imediatamente, pois, devido a um problema com a internet, não conseguira enviar a resposta e, assim, resolveu me ligar. Com outra – com quem tive contatos basicamente profissionais em apenas dois pequenos projetos – fiquei mais de uma hora ao telefone. A cada resposta uma surpresa.

Respostas

Determinada, persistente, teimosa, geniosa, objetiva, verdadeira, conciliadora, corajosa, serena, detalhista, organizada, intuitiva, otimista, divertida, perspicaz, competente, adaptável, paciente, disciplinada, pró-ativa, reflexiva, focada, amiga, gentil, sensível, competente, responsável, amável, curiosa. Essas foram algumas das respostas.

Ao analisá-las, descobri coisas sobre mim que nem eu sabia, ou tentava ignorar. Descobri que, em alguns casos, as pessoas me viam totalmente ao contrário do que eu me via e sentia, pelo menos naquele tempo. E as características mencionadas coincidiam mesmo vindo de pessoas de círculos sociais diferentes. Então, será que eles me conheciam melhor do que eu mesma?

Quando parecia que estava sem norte, disseram que eu sou determinada, que quando colocava alguma coisa na cabeça corria atrás, investigava, procurava alguma solução. No entanto, isso também podia me deixar teimosa em alguns momentos.

Quando tudo estava uma zona na minha vida e no meu apartamento, jogaram-me na cara que eu sou organizada e sei planejar estratégias.

Quando tudo parecia esquisito, avisaram que sou divertida, amiga e gentil.

Quanto tentava ignorar meus sentimentos, alertaram que sou verdadeira.

Quando me sentia sem chão, disseram que eu sou adaptável e otimista e que sempre encontrava saídas criativas para diversas situações.

Como era possível que pessoas tão distintas pudessem achar isso de mim? Com a curiosidade atiçada, resolvi entender o motivo das características que me deram e me rasguei um pouco mais. Resgatei situações e atitudes que pudessem justificar as respostas. Encontrei. Entendi a imagem que passo, compreendi um pouco melhor minhas atitudes e tive de aceitar que minha opinião sobre mim, naquele momento, era equivocada. Os outros estavam certos.

O aprendizado

Pelos outros, somos capazes de nos conhecer um pouco mais. Há momentos que somos tão críticos conosco mesmos que não enxergamos nossas qualidades, ou, ainda pior, as negamos e nos castigamos por não estar agindo de acordo com aquilo que somos.

Cobramos demais de nós mesmos, somos nossos mais severos e cruéis críticos. Isso precisa mudar. Ser mais tolerante e entender que não precisamos ser 100% eficientes em 100% dos momentos já é um primeiro passo. E, talvez, seja o passo suficiente para aceitar que você é muito mais do que os momentos ruins dizem que você é.

Eu, às vezes, ainda me esqueço de que não sou feita apenas de um instante. É aí que sinto a necessidade de um “oi, olha só do que você é capaz”. Isso pode vir de outras pessoas, mas é bom quando vem de mim mesma, o que vem se tornando cada vez mais constante. Assim tudo fica mais fácil e cada vez mais compreendo meus atos.

Ter feito esse exercício e ter me permitido ser analisada por outras pessoas contribuiu também nesse processo. Iniciei o questionamento com medo, mas encarei o desafio e a forma como enfrentei as “surpreendentes” respostas foi mais uma justificativa para ser vista como sou.

Agora te desafio: pergunte para algumas pessoas o que elas acham de você. E, diante das respostas, reflita sobre sua vida. Esse exercício pode não ser fácil, mas é rico. E você tem muito a ganhar com ele.

3 Comentário

  1. Muito interessantes o texto e a imagem dentro do círculo, a qual lembra o buda de 4 ou mil braços, Cherenzig em tibetano, Avalokiteshvara, na Índia, ou Kuan Yin, na China. Remete ao buda da compaixão. Inclusa aí a autocompaixão. Fiz uns recortesa respeito:
    “Muitos de nós estamos habituados a ser demasiado autocrítico(a)s. Não será surpreendente, pois na nossa sociedade somos ensinados a ser duro(a)s a nosso respeito, muitas vezes com excesso de culpabilidade, desde as nossas ações até à nossa aparência. A autocrítica tem sido o caminho preferido para o sucesso. Raramente pensamos em nós mesmos mostrando bondade ou até mesmo se o fizermos, preocupamos-nos, pois podemos ser egoístas, complacentes ou arrogantes. […]
    A autocompaixão tem sido associada a um maior bem-estar, incluindo diminuição da ansiedade e depressão, competências emocionais para lidar como os problemas mais eficazes e compaixão pelos os outros. Pode ser considerada com um conceito constituído por 3 dimensões.
    1. Autobondade: Ser bondoso(a), gentil e compreensivo(a) com você mesmo(a) quando está em sofrimento.
    2. Condição Humana Comum: Perceber que não está sozinho nas suas lutas. Quando estamos em luta temos a tendência nos sentirmos especialmente isolados. Tendemos a pensar que somos os únicos a enfrentar a perda, a cometer erros, a nos sentirmos rejeitados ou a falhar. Mas são essas mesmas lutas que fazem parte da nossa experiência partilhada, como seres humanos.
    3. Mindfulness: Observar a vida como ela é, sem julgar ou suprimir os seus pensamentos e sentimentos. Envolve a permissão e a aceitação dos sentimentos próprios, sem uma excessiva sobre-identificação com os mesmos. […] (http://spm-be.pt/m/autocompaixao-o-que-e/)
    ————-
    “A única razão pela qual não abrimos nossos corações e mentes para outras pessoas é que eles provocam confusão em nós, e não nos sentimos corajosos o suficiente ou sãos o suficiente para lidar com eles. Na medida em que nós olhamos com clareza e compaixão para nós mesmos, nos sentimos confiantes e destemidos ao olhar nos olhos de outra pessoa. “~ Pema Chödrön

    • Isso é o que temos (ou pelo menos eu tenho) de praticar: ter compaixão conosco mesmos e aprender a saborear o momento. Aprendizado constante e que requer prática diária. Obrigada, Gis, por compartilhar esse texto tão bonito.

      • Seu texto é muito bonito e verdadeiro, demonstra muita coragem sua. Mas fiquei muito tocada pela foto, uma/um Cherenzig “real”. Não sei se foi uma escolha intuitiva, mas tem tudo a ver com a reflexão proporcionada pelo texto. Eu tb estou em meio a essa reflexão e fui orientada a perceber essa simbologia búdica em mim. A foto lembra tb o homem vitruviano, de Da Vinci… muito interessante! Parabéns! Beijo!

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*