Zadar e Split: entre o mar e a muralha

Zadar, mar Adriático e Sol: trio perfeito.

Parir o texto de Zagreb foi difícil, mas achei que escrever sobre Zadar e Split seria mais tranquilo. Pura ilusão. Mesmo com muito esforço, descobri a minha incapacidade de abordar esses lugares de maneira que eu pudesse achar “passável”. E percebi que, na melhor das hipóteses, Croácia deve ter se decepcionado comigo. Na pior, ela nem se deu conta de que eu passei por lá.

Ao planejar o roteiro de viagem, levei em conta desejos, atrações, belezas e custos. Começaria por Zagreb, que serviria como porta de entrada e saída do país. Depois, de ônibus, partiria para Zadar e Split, duas cidades muradas da região da Dalmácia croata e onde poderia apreciar o mar Adriático.

Por mais que quisesse ter ido à Dubrovnik, deixei-a para outra ocasião por ser uma cidade mais cara em relação às escolhidas. Também, a princípio, havia o desejo de visitar o Parque Plitvice, mas não fui por achar que estaria lotado em pleno verão. Decisão acertada, pois no trajeto Zagreb-Zadar passei ao lado de Plitvice e, de fato, o lugar estava apinhado de pessoas.

Zagreb, Zadar e Split. Uma viagem que tinha tudo para ser inesquecível. E foi. Porém, ficou marcada mais por um aspecto bizarro do que por suas belezas.

Sob a proteção dos muros de Zadar

Ruas brilhantes de mármore; quase acetinadas. Verão quente. Muitos turistas, principalmente italianos, que apenas cruzam o mar Adriático para curtir as férias mais baratas do que as que a costa italiana oferece.

Zadar reúne história e natureza. Construções magníficas e paisagens paradisíacas. O passado e o presente. O concreto e o imaginário. O belo.

Para mim, Zadar foi um momento de respiro após um período conturbado em Zagreb (relato essa história em “Zagreb das profundezas“). Talvez essa sensação de segurança tenha sido proporcionada pelos muros que um dia também protegeram o lugar. Coincidência ou não, tive a oportunidade de hospedar-me dentro da Cidade Velha e uma das poucas vezes que me afastei de sua muralha fui “agraciada” pela perda de minha câmera fotográfica. Uma tristeza!

Entrada principal da Cidade Velha, construída em 1543 pelos venezianos. Fica à beira da Foša e é considera um dos mais belos monumentos do período veneziano da região da Dalmácia.

Mar Adriático

As altas temperaturas do verão na Croácia são um ótimo chamariz para diversos turistas europeus que buscam, a baixo custo, um lugar ao sol com vista para o Mar Adriático. O calor é grande e há praias na costa croata, mas não espere praias como as brasileiras, com areia fina. As da Croácia são pedregosas e, mesmo para dar um mergulho, é preciso habilidades e pés “fortinhos” para aguentar a empreitada. Os mais experientes usam um calçado específico, assim não machucam os pés e podem usufruir melhor do mergulho do mar. Quer ficar deitado na areia? Leve um colchonete ou prepara-se para uma massagem de pedras… Há até mesmo pessoas – talvez os experientes croatas – que se deitavam sobre colchões.

O calçadão que contorna a muralha da Cidade Velha também proporciona ótimas experiências com o Adriático. Seja caminhando tendo o mar como cenário, seja ouvindo a música vinda do Órgão do Mar ou, até mesmo, se permitindo um mergulho.

Saudação ao Sol

Placas solares expostas no chão captam a energia do Sol durante todo o dia e, à noite, mostram a beleza da Saudação ao Sol (Pozdrav suncu). Obra do arquiteto Nikola Bašić, a brincadeira de luzes é completada pela “trilha sonora” vinda do Órgão do Mar.

Placas da Saudação ao Sol iluminadas.

Órgão do Mar

Também planejado por Nikola Bašić, o Órgão do Mar (Morske orgulje) é um complemento à instalação da Saudação ao Sol. Os sons são emitidos quando as águas do Adriático batem nas escadas em que ficam as aberturas que formam os tubos do órgão.

Saída de ar do Órgão do Mar.

Cidade Velha

Por causa dos poucos dias que passaria em Zadar, reservei um quarto na Cidade Velha sob a proteção de sua muralha. Escolha mais do que acertada para facilitar a locomoção. Tudo bem que sempre há risco de o burburinho dos turistas perturbarem o sono, mas a rua em que ficava o apartamento era bastante tranquila e, ao mesmo tempo, ficava próxima de restaurantes, mercados e uma feira ao ar livre. O melhor foi ter os muros da Cidade Velha velando o sono após eu testemunhar os lindos pores do sol da cidade.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Dentro da Cidade Velha há também uma feira ao ar livre.

Parque Rainha Jelena Madijevk

O mais antigo parque da cidade, o Parque Rainha Jelena Madijevk (Prvi javni gradski perivoj) fica em frente ao portão principal da Cidade Velha. Árvores fornecem a sombra necessária para se caminhar tranquilamente mesmo sob o sol forte. O parque foi fundado pelo oficial austríaco Baron Franz Ludwig von Welden, em 1829, que era admirador da flora da região da Dalmácia.

Parque Nacional Kornati

Este é um passeio singular. Pegando uma das várias embarcações que saem do porto de Zadar ou de Šibenik, você navega pelo mar Adriático para conhecer diversas ilhas que compõem o Parque Nacional Kornati (Nacionalni park Kornati). São no total 89 ilhas, com paisagens paradisíacas e cercadas por águas cristalinas. O Kornati é um passeio que – arriscaria dizer – você tem de fazer.

Em Zadar, diversas empresas oferecem esse tour. Pesquise bem e veja quais os benefícios que cada uma oferece, pois há variação de tipos de embarcações e ilhas visitadas.

Foi no Parque Nacional Kornati que eu perdi a minha câmera fotográfica. No alto de um morro, fiquei tão hipnotizada pela paisagem que não percebi, ao levantar-me para ir embora, que a câmera continuou apreciando o horizonte. Eu saí do parque, ficaram a câmera e as diversas fotos que eu havia tirado no dia.

Esta é uma das poucas imagens que se salvaram (tirada por celular alheio).

Pôr do Sol

Cheguei a Zadar com a expectativa de encontrar o pôr do sol mais belo do mundo, como afirmou o diretor de cinema Alfred Hitchcock. Sempre tive receio de criar uma expectativa muito grande, pois a frustração pode ser maior do que se não tivesse expectativa nenhuma.

No entanto, não me decepcionei. Sentar nas escadas do calçadão de Zadar, tendo o mar Adriático para complementar o cenário e ver o Sol se pôr é uma bela imagem. Pode não ser o mais belo pôr do sol, mas está entre os mais incríveis que já presenciei.

Pôr do Sol. Zadar, Croácia.
Pôr do Sol. Zadar, Croácia.

Anunciação

Não foi por falta de aviso. Não mesmo! O problema é que tenho grande dificuldade de entender os sinais e não podia prever que, mesmo com placa indicativa, eu poderia ter de enfrentar meus carmas a qualquer momento. Você não acredita em carmas? Ah, tudo bem, mas eu acredito que tudo o que fazemos um dia volta para nós. Pode ser nesta ou em outra vida, mas volta… ah, se volta.

Zadar me deu alguns dias de tranquilidade, paisagens maravilhosas e a sensação de proteção. E mesmo tendo perdido minha câmera, saí de lá com uma impressão de que não mudaria nada. Porque simplesmente tudo estava perfeito. Sim, estava.

No entanto, com ou sem carma, era hora de voltar a fazer as malas. Próximo destino: Split.

Do lado de fora dos muros de Split

Para fechar com “chave de ouro” a viagem à Croácia, tive uma experiência bastante sonolenta em Split. O que poderia ter sido mais um passeio sensacional pelas ruas de uma cidade murada, acabou em sono descomunal e passei dias dormindo.

A moleza do corpo pode ter sido causada pelas altíssimas temperaturas do verão croata e, quem sabe, uma queda de pressão. Ou ainda eu estava me recuperando das noites em claro em que passei no banheiro em Zagreb. Ou, talvez, possa ter sido somente preguiça. A verdade é que em Split eu me sentia exausta.

Dessa vez, hospedei-me fora dos muros da Cidade Velha. Para “romantizar” minha viagem, encontro nesse fato a desculpa perfeita para ter sido dominada pelo monstro do sono e não ter conseguido aproveitar a fabulosa Split de que tanta gente fala.

Sem a proteção dos muros, minhas forças foram sublimadas pelo sol escaldante. E, sem energia, caí na cama tentando matar o sono que me destruía. Mas isso comprometeu bastante o tour por Split e, mais uma vez, por culpa minha, não aproveitei o que a cidade tanto poderia proporcionar…

Língua universal

Ainda bem que eu estava hospedada na casa de uma doce senhora croata. Apesar de ela não falar uma palavra em inglês, lá tive a experiência de que a barreira das línguas não é impedimento para quem quer se comunicar. Eu não sei croata, ela não sabia inglês. Entretanto, não importa a língua que se fala, quando há empatia, vontade de ambas as partes, atenção e carinho, a comunicação acontece. E, magicamente, todo mundo se entende.

Passando tanto tempo dentro do apartamento, tive a oportunidade de experimentar o delicioso café croata, feito por minha anfitriã. (No Brasil, é mais conhecido como turco, o café que não é coado. Quando comentei isso, ela deu uma risadinha meio assustada, talvez com um pouco de desdém. Vale lembrar que turcos e croatas têm uma rivalidade antiga.) Ela também preparou salada de fruta com chantilly feito na hora e torta de maçã… Uma simpatia só.

Por causa do cansaço e da perda de minha câmera fotográfica, as poucas fotos que possuo de Split foram tiradas de celular. Então… deixo o lápis um pouco de lado e dou espaço para as imagens. Que elas possam falar por si só (porque eu não tenho capacidade para isso).

Breve parênteses antes de sair de Split. Visitar o Parque Marjan (Marjan-Park Šuma) requer um pouco de resistência física, pois fica num morro cheio de ladeiras e escadas, mas é um lugar bastante agradável e fornece uma linda vista de Split. Ainda bem que tive disposição para conhecê-lo. Não tenho fotos do parque, mas ainda bem que internet existe!

Split vista do alto do Parque Marjan. (© Kaiser87. CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0).

Para fechar a Croácia: um resumo

Em Zagreb, tive diarreia.

Em Zadar, perdi a câmera fotográfica.

Em Split, fui dominada pelo sono, mas continuava exausta.

E assim acabou a viagem na Croácia. Minha última noite seria passada no aeroporto, aguardando o voo que partiria para Istambul logo cedo.

Foi mais uma noite mal dormida, num divã cheio de curvas, ar condicionado fortíssimo e barulho. De um lado, um cara com chulé terrível. O jeito foi virar para o outro lado, de onde vinha uma respiração alta e cansada.

E me senti como Zadar, no meio de uma dor de barriga nada agradável em Zagreb e um sono que me derrubou por alguns dias em Split. Eu no meio, aguardando a noite acabar e, por fim, sair de um país que me acolheu de forma muito inusitada.

Textos Relacionados

Zagreb das profundezas

Vox Populi

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*