Zagreb das profundezas

(Esqueça! Aqui você não encontrará nenhuma dica de passeio de Zagreb. Então, se é isso que procura, aconselho que pressione a Márcia a escrever um texto sobre a cidade.)

Detalhe da Catedral de Zagreb.

Olha a maluquice!

Como explicar uma viagem que parece ter sido apagada da memória? Tentei puxar lá do fundo do cérebro algumas lembranças, mas foi difícil. Recorri a fotos e, mesmo assim, não tive muito sucesso. Apenas surgiram flashs e algumas sensações sentidas durante a viagem.

Diante disso, me dei conta de que não poderia dar dicas sobre Zagreb. No entanto, posso falar da perspectiva de alguém que a experienciou de maneira inusitada: de dentro do banheiro. Consequência de uma diarreia que comprometeu os passeios desde a primeira hora em que cheguei à cidade.

Assim me tornei íntima do banheiro croata

Após ter passado algumas horas dentro de um ônibus, ter cruzado a fronteira Hungria-Croácia, feito operação matemática com a policial croata para saber quantos dias permaneci na Zona Schengen e ter engolido um hambúrguer enquanto aguardava o momento de ir ao pequeno estúdio em que me hospedei, tive uma mostra de como a viagem pelo país seria diferente. Foi uma experiência visceral, que quase arrancou minhas entranhas – será que exagero? – e não me deixou conhecer a capital da maneira que eu pretendia.

O banheiro.

O primeiro sintoma surgiu na lanchonete em que eu comia um hambúrguer, isso um pouco antes da hora do almoço. Primeiro veio um calafrio, depois movimentos abdominais tímidos e em seguida alguma coisa começou a borbulhar dentro de mim. A impressão era de que uma orquestra interna se preparava para o clímax de uma composição e, prudentemente, não aguardei o grand finale. Fui ao banheiro da lanchonete mesmo. E, tão logo me sentei no vaso sanitário, a limpeza começou. Foi uma faxina tão pesada que durou aquele e os próximos dois dias.

Esqueça perambulações pela cidade, passeios calmos e observações demoradas. Esqueça longos trajetos, refeições tranquilas e descobertas gastronômicas. Beber o famoso café croata? Esqueça! Esqueça tudo isso porque a hora era de limpeza interna.

Dia 1 – Livrai-nos do mal

Zagreb é dividida em três grandes regiões: Gornji Grad (Cidade Alta), Donji Grad (Cidade Baixa) e Novi Zagreb (Nova Zagreb). Gornji Grad é onde está concentrada a maior parte das atrações turísticas e agito. Desejando algo mais calmo, fiquei num bairro residencial, em Donji Grad, cuja distância até o centro da cidade era de cerca de 2 quilômetros. Isso me permitia a liberdade de andar ou pegar os modernos trams.

Rua de Zagreb.

A ideia inicial era chegar, deixar as malas no pequeno estúdio alugado e começar a exploração da cidade. No primeiro dia, conheceria todos os bairros de Gornji Grad, um passeio tranquilo considerando que estaria cansada da viagem. No entanto, nem isso aconteceu. Após a dupla ida ao banheiro da lanchonete (sim, foram duas vezes!), dirigi-me ao local onde me hospedaria e, ali, me deu vontade de mais uma vez ir ao banheiro. E outra e outra e outra.

E o passeio que seria logo após o almoço, iniciou somente no final da tarde.

Já com o sol se pondo, cheguei à Catedral de Zagreb, ou Catedral da Assunção da Abençoada Virgem Maria (Zagrebačka katedrala ou Katedrala Marijina Uznesenja).

Naquela hora, estava acontecendo um concerto na catedral e me achei afortunada por ter sido presenteada após um dia tão melequento. Entrei, mas não consegui curtir a música, pois foi colocar os pés na igreja que os movimentos peristálticos voltaram com toda a agilidade e força.

Tentei permanecer por mais tempo, porém, tive de reconhecer minha incapacidade e deixei o recinto. Retornei o mais rápido que pude ao apartamento e lá me livrei de todo o mal que me afligia… e isso durou a noite inteira.

Dia 2 – Seja feita a vossa vontade

Nem é preciso dizer que acordei só o pó.

Depois de uma noite em claro, indo e vindo ao banheiro, só me senti segura para explorar Zagreb quando o sol já baixava.

Voltei a fazer o mesmo trajeto do dia anterior, até Gornji Grad. No caminho, entrei na pequena e simpática Igreja de São Pedro (Crkva sv. Petra) – na avenida Vlaška –, passei pela estátua de August  Senoa – escritor croata – e cheguei mais uma vez à Catedral de Zagreb.

Um pouco mais leve, contemplei com mais calma os detalhes da arquitetura religiosa e apreciei por alguns minutinhos o relógio quebrado no terremoto de 1880, parado às 7h3m3s. Fiquei um pouco intrigada diante do objeto. Seria sua exposição uma forma de nos lembrar que não temos controle sobre o tempo?

Já no escuro, caminhei pelas ruas do centro histórico. Coberto por uma penumbra misteriosa, o passeio ficou ainda mais emocionante quando encontrei um funcionário que acendia as lâmpadas a gás pelas ruas do bairro Kaptol. Talvez ele tenha achado esquisito, mas eu o segui por um trajeto admirando cada vez que sua ação acendia uma luminária.

Andar pela cidade à noite sempre é convite para testemunhar uma atmosfera diferente da que vemos de dia. Por exemplo, é uma beleza andar pelo parque Bele IV-Vranyczanyeva poljana e não encontrar uma alma viva (nem morta!), ou deparar-me com a imagem da Virgem Maria que sobreviveu a um incêndio ocorrido em 1731, em Zagreb, protegida pelas velas deixadas por seus devotos.

E que sensação é passar pela igreja barroca Crkva sv. Katarine (Igreja de Santa Catarina) e pela igreja do século XIII Crkva sv. Marka (Igreja de São Marcos ), sentar diante da Torre Lotrscak, ver a Catedral de Zagreb toda iluminada e admirar a cidade do alto. Um espetáculo. Tudo estava tão lindo que até me esqueci da dor de barriga que me atacou. Tudo estava perfeito. Eu estava curada!

Na volta, parei em um supermercado para comprar o jantar. Estava lá eu, toda serelepe, curtindo a felicidade de ter passeado e que, finalmente, poderia comer, quando comecei a sentir novamente dores e alguma movimentação abdominal estranha. Ops! Não podia esperar muito, saí ligeirinho dali e voltei ao meu banheiro onde passei mais uma noite de badalação.

Exausta pelas noites mal dormidas, por não comer direito, sentir fadiga causada pelas altas temperaturas da cidade (Zagreb ferve no verão), resolvi tomar um remedinho para “trancar” o intestino.

Dia 3 – Assim na terra como no céu

Era o momento de arriscar e tentar ir um pouco mais longe do banheiro para conhecer a cidade. Procurando expandir meu mundinho “além privada”, tentei alcançar o céu e encontrei o sistema solar. Calma, o que encontrei foram alguns dos planetas que compunham a escultura Devet pogleda (“Nove visões”). Formada por nove esferas que representam cada um dos planetas do sistema solar, elas estão expostas em diversos locais da cidade.

O Sol ao lado da Praça Jan Jelačić.

Mesmo querendo conquistar o sistema solar, fiquei num perímetro “de confiança”. O que me deu a oportunidade de conhecer a Praça Jan Jelačić e a conhecida Feira Dolac. Parei diante da estátua de São Jorge contra o dragão, passei um tempo calmo no Botaničk vrt (Jardim Botânico), vi “O cogumelo” – a primeira fonte da Croácia – e sentei na Praça Nikola Subczrinski.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Listando assim até parece que me lembro de tudo. (Abençoadas sejam as fotos, pois não recordo nada disso.) Mas lembro-me bem que fiquei impressionada diante da Fonte da Vida (Zdenac života). Feita em 1905 pelo arquiteto Ivan Meštrović e exposta em frente ao Teatro Nacional Croata, a escultura representa pessoas de diversas faixas etárias diante das virtudes que simbolizam a vida, a juventude e o belo.

Vale a ressalva de que, apesar de ter ido ao banheiro nesse dia, não passei nenhum perrengue. Oba!!

Fonte da Vida (1905), de Ivan Meštrović.

Dia 4 – Do pó viemos ao pó iremos

Ir ao bairro Nova Zagreb ou ao Cemitério Mirogoj? Eu, que adoro conhecer as cidades por meio de seus cemitérios, escolhi a segunda opção.

Como era próximo ao bairro em que eu estava hospedada, fui caminhando. Eu andava devagar, sentia-me exausta, mas tentei não me deixar vencer já que aquele seria o último dia que poderia conhecer a cidade.

Mirogoj é, de fato, um cemitério lindo. Fundado em 1876, é local de sepultamento de pessoas de várias religiões – católicos, ortodoxos, muçulmanos, judeus e protestantes – o que já faz dele um lugar especial. Além disso, é uma galeria de arte a céu aberto e uma maneira diferente de conhecer a história da Croácia.

Cemitério Mirogoj.

E, para lembrar de minha saga dos últimas dias, foi lá que encontrei essa linda estátua em cima de um túmulo: um leão adormecido. Assim que eu me sentia naquele momento, bastante cansada e querendo apenas dormir. Dormir muito.

Cemitério Mirogoj.

Depois de andar por algumas ruas de Mirogoj, em vez de voltar ao apartamento, tomei outro rumo e fui novamente à Cidade Alta. Dessa vez a fim de ver o local sob a luz do dia. Passeio que se revelou importante, pois observar o reflexo da luz do sol no telhado da Igreja São Marcos é memorável (isso, pelo menos, eu me lembro).

Catedral de São Marcos.

Também é interessante notar como a iluminação altera uma mesma construção ou lugar. Foi o que senti ao voltar ao Parque Bele IV-Vranyczanyeva poljana e ver a Torre Lotscak.

Dia 5 – Agora e na hora de nossa morte

Não havia mais tempo para passear pela cidade. Hora de arrumar as malas e partir para Zadar, que Hitchcock afirmou possuir o mais belo pôr do sol.

A sensação era de que eu não havia explorado Zagreb. Não conheci todos os locais desejados, não tomei o café croata, nem me dei o luxo de dormir em algum jardim. Mal sabia eu que a viagem não tinha terminado. O café croata seria tomado num momento muito mais especial. O sono seria recuperado (até em exagero) em uma aconchegante cama em Split. E conhecer Zagreb, bem… Eu a conheci, só que de uma forma um tantinho diferente.

Agora, pensando na viagem, a sensação é esquisita por não lembrar de muita coisa. A verdade é que realmente acho que foi um momento de limpeza interna, uma situação que tirou algo de dentro de mim para dar espaço a outras coisas. Isso pode ser interpretado literalmente – sai meleca, entram novas comidas – ou de uma forma mais abstrata – morre algum sentimento para dar lugar a uma nova vida…

Cada um escolhe a interpretação que quiser. Eu opto pelas duas.

Dali a alguns dias chegaria à Turquia e o encontro de continentes se daria em breve. E a passagem para o outro lado do mundo também…

 

Textos relacionados

Indo para onde sou

Zadar (em elaboração)

Split (outra viagem esquisita em elaboração)

Vox Populi

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*